Gaudêncio Torquato: Coisas da Política: O bullying na política

O estilo é a marca  principal do político, a estética de sua ação. O senador Roberto Requião que o diga. Faz do estilo montaria de batalha. São muitos os episódios em que o ex-governador do Paraná aparece dando vazão a um repertório de manifestações, gestos e atitudes que dão realce a um ator cujo desempenho poderia surpreender o renomado mestre da arte teatral Constantin Stanislavski. Pois Requião “vive” intensamente o papel, não fica na mera interpretação. Daí parecer autêntico, sem meias palavras, despachado, um cabra da peste. Como um dândi no meio da plantação, chama a atenção pelo prazer de espantar as mais distintas plateias.

O senador cultiva o hábito de guerrear com palavras e acaba borrando a imagem com tintas da polêmica. O recente episódio em que tomou o gravador de um repórter que lhe perguntara sobre a aposentadoria vitalícia ocorreu para se defender de uma imprensa “absolutamente provocadora e irresponsável”, a quem acusa de praticar bullying.

O conceito, como se recorda, ganhou ênfase no meio da discussão provocada pelo assassinato de 12 crianças numa escola de Realengo, no Rio de Janeiro. Trouxe à tona a história do assassino Wellington Menezes, que, em carta, lembrou os atos de violência psicológica a que foi submetido quando estudante naquele estabelecimento.

O tema está na ordem do dia dos educadores, pela gravidade que tem assumido nos espaços escolares. Puxá-lo, agora, para a arena política e, mais ainda, pela expressão de um senador da República é um ato que carece fundamentação. A intenção de Requião ao acusar a imprensa de praticar bullying seria mero artifício para justificar a “perda de paciência”, caracterizada pelo gesto de arrancar o gravador das mãos do repórter (e depois devolvê-lo sem a gravação), ou ele está mesmo convencido de que jornalistas e programas, como os citados CQC e Pânico, invadem a esfera pessoal de entrevistados com “doses de provocação”, praticando, por conseguinte, violência psicológica? A expressão senatorial não se sustenta. Confunde escopos. Programas humorísticos não são eixos centrais da imprensa. Suas funções essenciais são as de informar, interpretar e opinar. Entreter é uma função secundária. Quando um jornalista perquire um mandatário sobre patrimônio, benesses, prêmios, viagens, gestos e atitudes, ele o faz porque tal acervo é de interesse daqueles que ele representa. O homem público precisa prestar contas de todos os atos que, de forma direta ou indireta, têm relação com bens e valores da República.

Pelo que se sabe, a entrevista com o senador versaria sobre sua aposentadoria vitalícia, garantida por liminar que, posteriormente, foi revogada pelo Tribunal de Justiça do Paraná. O tema, portanto, era pertinente, eis que a aposentadoria vitalícia, prevista pela própria Constituição Federal, deverá ser objeto de apreciação pelo Supremo Tribunal Federal. Sob esse prisma, não se justifica o rompante agressivo do ex-governador. Não se tratava, pois, de abordagem humorística, e sim de pauta jornalística. Um alto representante congressual não pode deixar de discorrer sobre assunto de significação social e muito menos “perder a paciência” com repórteres provocativos. Provocar, aliás, é um verbo conjugado pela missão investigativa da mídia. Vejamos, agora, a questão sob o ângulo do entretenimento, pois tanto o senador Requião quanto outros políticos e celebridades carimbam certos programas de humor como ”excrescência, apelativos e constrangedores“.  Não raro os entrevistados passam por uma bateria de perguntas embaraçadoras, sarcásticas e, convenhamos, insultuosas em certos casos.

O bullying político, a que se refere o senador, para se caracterizar,  deveria conter o elemento repetição, ou seja, a vítima deveria ser submetida a frequente assédio pelos algozes.  E mais, no bullying os indivíduos agredidos pelo valentão (bully) não são capazes de se defender. Valentia por valentia, como se pode ver, Requião é mais campeão. Se alguém não desejar responder às ”provocações“ de um repórter, o silêncio é também forma de expressão. Quem se sente atingido na honra pode apelar aos tribunais.