Detalhes tão pequenos

Protocolos diplomáticos devem ser conhecidos por quem deseja fechar um negócio no exterior

 

Expandir a empresa para outros países pode ser o objetivo – ou o sonho – da grande maioria das instituições. Mas a internacionalização não é lá muito fácil, e não só porque exige um investimento altíssimo, uma extensa rede de contatos, além de um estudo minucioso da economia e do mercado onde os negócios serão fechados. Grande parte do almejado sucesso está em conhecer as diferenças culturais do país escolhido e em pequenos detalhes, como o modo de se vestir, como agir à mesa ou como cumprimentar uma pessoa. 

Para ficar por dentro destas adequações culturais, a empresa recorre ao internacionalista, um especialista na cultura em questão, que evita que os executivos sejam surpreendidos pelas diferenças culturais. A professora do Departamento de Relações Internacionais da PUC-Rio, Sabrina Evangelista Medeiros, é também consultora e trabalha com estas situações.

– Neste caso, fazemos um estudo de sinergias, uma abordagem geral a respeito daquela cultura. E a sociabilidade é muito levada em conta, por isso citamos comumente as regras de etiqueta do país, que são protocolos diplomáticos importantíssimos – afirma. 

Algumas culturas levam mais a sério as regras sociais. No Brasil, muitas vezes recorremos ao protocolo inglês, mas não o seguimos tão à risca, já que nossa cultura tem um alto grau de informalidade. Entretanto, alguns dos nossos costumes podem nos colocar em situações constrangedoras. Em um jantar, por exemplo, costumamos colocar a pessoa de mais prestígio na ponta da mesa, enquanto que, em alguns países, quem senta neste lugar é exatamente a pessoa menos importante.

– Para algumas sociedades, estes protocolos diplomáticos têm alto grau estratégico. Isso implica saber que, ao entregar um cartão de visita para um japonês, você deve fazê-lo com as duas mãos – exemplifica a professora. 

Segundo Sabrina Medeiros, outro costume comum entre os japoneses é para pagar o táxi de ida e volta dos amigos que foram convidados para jantar. Mas embora seja uma sociedade muito formal, a cultura japonesa valoriza a humildade. Por isso mesmo, exagerar nos adereços certamente será visto como ostentação.

O modo como eles se cumprimentam também é peculiar:

– Quando um japonês se curva ao cumprimentar alguém, ele está fazendo um gesto de humildade e de reconhecimento do prestígio alheio, e a outra pessoa deve fazer o mesmo – diz Sabrina.

Outra questão polêmica é o arroto, que, em algumas sociedades árabes, pode ser considerado o agradecimento ao fim de um lauto jantar. Já em outras lugares, como o Brasil, arrotar é uma tremenda falta de educação.

Outro costume curioso para nós, brasileiros, é que, em algumas culturas orientais, o caixa de uma loja ou restaurante não deposita o troco nas mãos do cliente, e sim no balcão. Esse gesto sinaliza respeito à higiene, mas pode parecer muito impessoal nas sociedades latinas.

Para lidar com estas diferenças, o professor Bruno de Cerqueira ministra o curso de extensão Cerimonial e Protocolo, numa faculdade do Rio, onde aborda especificidades culturais com as quais o empresário vai negociar. 

– Em geral, os profissionais não se preocupam muito com a etiqueta, mas isto está mudando. Quando o executivo mostra preocupação com aquilo que é valorizado na outra cultura, a chance de o negócio dar certo aumenta muito – comenta.

Ele ressalta a importância de saber como se dirigir às pessoas. Algumas empresas, por exemplo, têm sócios que receberam títulos de nobreza e, por isso, o tratamento deve ser diferenciado. E cita um exemplo bem em pauta.

– Imagine se o príncipe William vem ao Rio com a mulher, a duquesa Katherine. O gerente de guest relations do hotel em que eles estiverem hospedados certamente terá que conhecer as  regras da realeza, de como tratá-los e como a mesa deve ser posta para as refeições. Se isso não acontecer, certamente eles terão uma impressão ruim do hotel e do Brasil, e não voltarão mais – afirma.