Carlos Eduardo Novaes: Torcendo com o inimigo

Agora que terminou o Campeonato Carioca e o futebol de domingo – pela TV – transferiu-se para São Paulo, deixe-me contar o que me impressionou nesta estranha semana, além da derrota do Flamengo para o Ceará, da goleada do Coritiba no Palmeiras e das quatro quedas dos brasileiros na Libertadores. Foi no empate (1x1) entre o Barcelona e o Real Madrid no Camp Nou. A cena que me chamou atenção, no entanto, ocorreu fora do gramado. Mais precisamente na tribuna de honra do estádio.

No momento em que o jogador Pedro abriu o placar para o Barcelona, a televisão focalizou os presidentes dos dois clubes, sentados lado a lado.  Acredita que não deu para identificar quem era o presidente do Barcelona e do Real Madrid? 

O estádio vindo abaixo, comemorando o gol, e os dois impassíveis, como se fossem delegados da FIFA ou parentes do juiz. Sandro Rosell, presidente do Barça, não moveu um único músculo da face. Com certeza vibrou para dentro, da mesma forma que o inalterável Florentino Perez, do Real, guardou seu desencanto no fundo da alma. Não faz bem à saúde reprimir emoções. Sandro poderia ter pedido licença para ir ao banheiro e lá dentro soltar seu grito primal.

Acho uma judiação essa regra de etiqueta e cavalheirismo que a Espanha impõe aos presidentes de clubes de futebol obrigando-os a se comportar como se estivessem em uma sala de concertos. Futebol é paixão, é explosão. É nos estádios que o torcedor se descomprime, faz catarse, purga seus pecados. Um torcedor que briga com a mulher em casa e vai para o jogo carregando as seqüelas da discussão volta outro, renovado, depois de abrir o coração e os pulmões no estádio. Se seu time vencer é até capaz de levar um presente para a patroa. Já um presidente de clube espanhol que não pode extravasar nada do que sente no estádio, com certeza ao chegar em casa vai descarregar em cima da mulher.  

Não dá para sentar os presidentes de clubes juntos, como se fizessem parte da mesma torcida. Podiam ao menos mantê-los separados por umas dez ou 12 cadeiras, deixando-os à vontade para soltar um palavrão, xingar o juiz, reclamar um passe errado. É uma grande ironia que justo o presidente – que se supõe seja o maior torcedor do clube – não possa nem ficar de pé para comemorar um gol.

Sem poder expressar suas emoções, sobre o quê conversam nas duas horas que passam roçando a manga dos paletós? Falam sobre o tempo? A alta do custo de vida? Dão indicação de filmes e restaurantes? No caso de Sandro e Florentino Perez, depois de se encontrarem quatro vezes em menos de um mês, é natural que permaneçam mudos: não há mais assunto. Mas se abrirem a boca, será para dizer algo que não envolva o jogo. Não seria de bom tom Florentino Perez comentar que o juiz garfou o Real ao anular o gol de Higuain. Isso ele vai dizer para a mulher, em casa.

No final fica a pergunta : será que os presidentes dos nossos clubes assistiriam a uma decisão, sentados assim lado a lado, como dois alunos comportados na sala de aula?