Anna Ramalho: O cofre forrado de veludo vermelho

Remexendo numa gaveta, encontrei uma caixinha que ganhei há anos de uma amiga: bem pequenininha e cheia de pequenos e coloridos cartões com mensagens de otimismo, versículos do Novo Testamento, frases de almanaque. Ganhei em algum dos momentos dolorosos por que passei e nem quero me lembrar qual, porque tristeza e deprê trato logo de mandar andar. Xô!

A caixinha me fez pensar no pequeno cofre que tenho guardado dentro de mim: um relicário forrado de veludo vermelho, no qual guardo as boas recordações, os momentos inesquecíveis, os grandes livros que leio, as belas músicas que ouço, os filmes, peças e novelas que assisto, as maravilhosas viagens que  faço. Penso neste cofre como no tesouro que ele é – e que fica ali, acumulando todas essas coisas boas – para quando a vida não for tão colorida quanto é hoje, para os momentos cinzentos, para as horas do crepúsculo que chega para todos nós, inevitavelmente.

Gostaria de ter a disciplina de escrever um diário. Nunca tive. Os registros ficam nessas crônicas semanais. O tempo passa, minha Bela Antonia cresce, e isso consigo fazer: guardar ali por perto de mim seus desenhos, as primeiras palavras, as frases quando começaram a se formar... Agora, estamos, eu e ela, em plena época da “letra cursiva”, pois ela já não diz mais “letra de mão dada”. Está ficando uma mocinha. Esses guardados são preciosos e o último é tocante: ela fez, com folhas A4 e com uma mera esfereográfica azul, o Álbum da Vovó, devidamente grampeado na horizontal, na forma mesmo de um álbum clássico. Tem quatro ou cinco páginas com sua interpretação gráfica de nós duas, um “vovó eu TI amo” enternecedor e é arrematado pelo “nosso Bubinho”, o meu cachorrinho que ela adotou nos seus afetos. Faz bem à alma e ao corpo estar cercada por um amor tão verdadeiro e puro como este. Hoje é o bem mais precioso que tenho no meu cofre.

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Vai também como preciosidade para o cofre forrado de veludo vermelho o reencontro com meu compadre Gustavo, que não via havia quase 20 anos, e que fui reencontrar em São Paulo, onde ele mora. E, claro, o reencontro – com ares de primeiro encontro – com minha afilhada, a Babi. Fui especialmente para festejar os três aninhos do filho dela,  João Pedro. A mãe da Babi e mulher do Gustavo, minha querida comadre Deyse, vejo mais, porque volta e meia ela está aqui no Rio e nos encontramos.

A vida apronta dessas coisas e a gente tem que ficar esperto: Deyse e Gustavo, que eu via quase que diariamente, um belo dia mudaram-se para Sampa. Já tinham o mais velho, Pedro, e a Babi. O Lucas, o terceiro filho, nasceu temporão. Este eu só tinha visto uma vez. Coisa inadmissível, mas que vira admissível diante dos obstáculos que a vida vai botando na frente da gente – o primeiro deles, claro, a distância. São Paulo é aqui do lado e não é. A ponte aérea é uma fortuna, o Trem de Prata não colou e o Trem Bala, sabe-se lá se vem e quando vem. 

Um dia, logo depois que o João Pedro nasceu, minha afilhada me mandou um duro e-mail. Cobrava, com toda a razão, a péssima madrinha que eu sempre fui – uma pessoa ausente, que ela mal conhecia e estranhava quando a mãe dizia que era uma pessoa legal, gostável, direita. Foi uma cacetada a mensagem da Babi. Mas foi importante. Muito. Respondi com a verdade: tive uma vida dura, separada muito cedo, órfã muito cedo, com filho único pra criar, sempre trabalhando muito e nesta profissão que adoro, mas que arranca o couro e paga muito mal. Sempre vivi do meu salário, nunca tive pensão de ex-marido, de modo que vivi – como vivo ainda – fazendo conta.

Enfim, toda vez que ameaçava ir a São Paulo, acontecia alguma coisa e eu acabava mais uma vez dando o bolo na minha afilhada.

Acabou a culpa. Tal qual César, fui, vi e venci. Abracei Gustavo como se o tivesse visto ontem. Conversamos por 12 horas seguidas, fiquei com a língua na tipóia e nem saímos de casa. Descobri que tenho uma afilhada bonita, inteligente, promoter de sucesso, sem espaço na agenda de trabalho e ainda é muito bem casada com o João. O pequeno JP é um fofo e a vida dela corre no melhor dos mundos, graças ao Bom Pai.

Resumo da ópera: fim de semana e família já devidamente acomodados no cofre forrado de veludo vermelho – a serem de lá sacados quando for necessário um pedacinho de felicidade.