A sutileza da alma

Sob a máscara de um médico, Emil Gräsler, o autor austríaco Arthur Schnitzler (1862-1931), comparado a Freud, faz uma análise psicológica de atitudes egoístas do homem, em romance relançado pela Record

A burguesia alemã da primeira metade do século 20, se espelhada no doutor Gräsler, protagonista de O médico das termas, bem que mereceu o destino que lhe veio bater à porta. Arthur Schnitzler (1862-1931), que já apareceu traduzido outras vezes para o português, como em Crônica de uma vida de mulher, mais uma vez brinda o leitor com uma novela em que, através de apurada análise psicológica, desvenda as mais sutis características da alma humana. O autor vienense chegou a ser chamado de irmão gêmeo de Sigmund Freud. 

Se, em Crônica, ele centrou a vida europeia no universo feminino através de Therese Fabiani, neste último ele apresenta uma narrativa sob a ótica masculina, e sob a máscara de um médico, Emil Gräsler, alguém sempre invejado e, teoricamente, pleno de respeito.

O texto começa com um navio prestes a zarpar, o que não deixa de ser um indício sintomático do comportamento volúvel do próprio doutor Gräsler, alguém sempre à beira de tomar uma decisão que é adiada continuamente, até ser atropelado pelos acontecimentos e perder o domínio do seu próprio destino. Isso acontece durante toda a narrativa, começando por sua partida de uma estação de veraneio, onde atuava como médico de um hotel, até o final, quando, depois de um ano de titubeios e incertezas, de três mulheres que lhe passam pelas mãos, está de novo a chegar ao lugar de onde partira. Na verdade, uma história circular.

Ainda no início, o gerente do hotel está no cais para se despedir do médico, agradece-lhe efusivamente a presença, lamenta a morte da irmã – sim, o doutor Gräsler tinha uma irmã, que também era sua governanta, mas ela se suicida misteriosamente na estação de veraneio, lá pelo final descobrem-se os motivos – e  diz que o espera, ansioso para a temporada do próximo ano.

O médico passa por Berlim e retorna à pequena cidade onde costumava exercer sua clínica médica durante o restante do ano. O que mais faz, no entanto, é levar uma vida de bon vivant, almoçando, fumando charutos caros e debatendo futilidades com os amigos da mesma espécie. Ele, que está à beira dos 50 anos, nunca atendeu a nenhum caso mais sério no seu consultório de província. Até que lhe esbarra pelo caminho Sabine, uma jovem mulher muito culta, de 26 anos, e bem mais madura do que ele. 

Ela o procura devido a uma indisposição sofrida pela mãe. Com o correr do tempo, o médico, muito espertamente, passa a frequentar a sua casa. O pretexto para tais visitas é que ele deseja informações sobre o estado de saúde da senhora sua mãe. A família trata-o bem, e é composta pelo pai, que foi cantor de ópera, tendo deixado a profissão por motivos de saúde, a mãe, Sabine, que estudou teatro, mas tem queda pela enfermagem, e o irmão, ainda um jovem estudante. 

O doutor Gräsler torna-se íntimo de todos e passa até mesmo a participar dos almoços de domingo. Após as refeições, passeia com Sabine pela floresta que há nas redondezas, já que a casa onde a família mora é a da antiga guarda florestal. Mas aproxima-se o momento em que o doutor terá de tomar uma decisão, tanto profissional como sentimental. E decisões não são o seu forte. 

No comportamento com as mulheres é que se pode notar o caráter mesquinho do médico. Sabine chega a se oferecer a ele em casamento. Tudo que ela deseja é que o doutor adquira um hospital decadente, reforme-o e se torne o médico responsável. Ela oferece ainda o dinheiro para a compra e para as obras, caso ele não o possua e, com o intuito de ajudá-lo, propõe ser a administradora. Mas Gräsler é um covarde, a pecha de médico de termas nunca há de desgrudar-lhe. Parte para Berlim alegando ter de resolver problemas relativos ao testamento da irmã, pede um tempo para responder às propostas de Sabine. Demora a decidir. Enquanto isso, na cidade grande, cai de amores por uma outra mulher, Katharina, balconista de uma loja de luvas. Convida-a para o teatro, presenteia-a com chocolates e algumas joias, leva-a, enfim, para morar em sua casa enquanto ele pensa no que vai fazer da vida.

A narrativa de Arthur Schnitzler é leve, irônica e vai-se realizando em ordem cronológica. É desenvolvida apenas a partir de um núcleo, o da vida do médico das termas, e progride de acordo com suas andanças, por isso melhor chamá-la de novela. Há mergulhos no passado quando o protagonista desvenda, através da descoberta de um pacote de cartas, a vida pregressa e secreta da irmã.

O escritor vienense apresenta-nos um personagem que, apesar de médico, em momento algum deixa de se colocar em primeiro plano, sente-se sempre injustiçado, vítima do destino, não repara que pessoas como ele, Gräsler, ao negligenciar pequenas decisões, negligenciam o papel que deveriam assumir na vida coletiva. A Europa fervilha à sua volta, e a própria febre que vez ou outra ele tenta debelar nos seus pacientes é, na verdade, a febre que consome todo um continente. Apenas ele não a percebe.

Médico das termas, de Arthur Schnitzler. Editora Record. 176 páginas. R$ 33,90. 

Haron Gamal – professor e doutor em literatura brasileira pela UFRJ.