Quem avisa amigo é

Pedras centenárias conscientizam população japonesa sobre tsunamis

Um tabuleiro de pedra está presente em uma colina da cidade de Iwate, no Japão, desde antes do nascimento dos moradores da vila de Aneyoshi, ali situada, e eles obedecem com fé ao severo alerta entalhado na face desgastada: “Não construam suas casas abaixo deste ponto!”. Eles afirmam que esta imposição de seus ancestrais manteve a pequena vila de 11 famílias fora do alcance do tsunami ocorrido em março. As ondas pararam a apenas 91 metros abaixo da pedra.

– Eles eram muito sábios e já conheciam os horrores dos tsunamis, então ergueram estas pedras para nos alertar – diz  Tamishige Kimura, líder da vila de Aneyoshi.

Centenas das chamadas “pedras contra tsunamis”, algumas delas com mais de seis séculos, pontuam a costa do Japão, um silencioso testemunho à destruição presenciada pelos antigos povos deste país com alta tendência a terremotos. Porém, o Japão moderno, confiante de que a tecnologia avançada e barreiras mais altas protegeriam áreas vulneráveis, esqueceu e ignorou esses alertas.

– Estas pedras estão presentes há várias gerações, mandando que os descendentes evitem o mesmo sofrimento de seus ancestrais. Alguns lugares ouviram estas lições, mas muitos não – lamenta Itoko Kitahara, especialista na história de desastres naturais da Universidade de Ritsumeikan, em Kyoto. 

As pedras, algumas com até três metros de altura, são comumente avistadas ao longo da costa nordeste do país, lugar mais afetado pelo terremoto e o tsunami. Embora algumas delas sejam centenárias, a maioria foi erguida há pouco menos de um século, quando ocorreram dois grandes tsunamis, incluindo um que matou 22 mil pessoas.

Muitas dessas pedras trazem alertas simples, pedindo que as pessoas abandonem tudo e busquem terrenos mais altos após um forte terremoto. Outras oferecem tristes lembretes da força destrutiva das ondas ao listar mortes passadas ou marcar túmulos coletivos. As pedras de Aneyoshi são as únicas que dizem especificamente onde construir casas.

Estudiosos afirmam que apenas algumas vilas obedeceram aos antigos alertas ao manter suas casas em terrenos altos. As pedras e outros alertas foram desconsiderados à medida que as cidades costeiras cresceram e passaram a confiar mais na tecnologia. Até mesmo as comunidades que se deslocaram para terras mais altas acabaram se realocando no litoral.

– As pessoas esquecem com o tempo, até que outro tsunami chega e mata mais dez mil pessoas – diz Fumio Yamashita, historiador do governo de Iwate.

Ele, que, aos 87 anos, sobreviveu ao recente desastre se agarrando a uma cortina do hospital onde estava internado, critica que o Japão negligencia o ensino da sabedoria deste fenômeno natural nas escolas. Yamashita ainda ressalta que as barreiras de concreto de diversos andares, construídas recentemente pelo governo, foram facilmente destruídas pelas ondas em março.

Ele e outros especialistas locais lamentam que as pedras e os antigos ensinamentos não tenham contribuído para a conscientização geral. Mas muitos ainda respeitam estes avisos, como Tamishige Kimura, que acredita que as inscrições das pedras sejam “uma regra dos nossos ancestrais, que ninguém deve ousar desobedecer”.

O pescador e morador de Aneyoshi, Asahi Shibuning, conta que a vila deslocou suas primeiras casas para cima da colina após um tsunami em 1896, quando apenas duas pessoas sobreviveram. A vila foi novamente povoada e se deslocou para o litoral alguns anos depois, quando foi outra vez devastada por um tsunami em 1933, que deixou quatro sobreviventes.

Depois disso, os moradores se deslocaram permanentemente para terrenos mais altos e a pedra foi colocada. Shibuning afirma que nenhum dos 34 atuais moradores da vila sabe quem colocou a pedra que, segundo ele, já os salvou de outros três tsunamis. 

Para a maioria dos japoneses, as pedras são relíquias do passado, cuja linguagem parece impenetravelmente arcaica. Entretanto, especialistas dizem que elas inspiraram a criação de novos monumentos que funcionam como alertas contra tsunamis, mais adequados visualmente a esta era.

Uma ideia, lançada por um grupo de pesquisadores, pede a preservação de alguns dos prédios arruinados pelo último tsunami para que funcionem como lembretes permanentes do poder destrutivo das ondas, assim como o Domo da Bomba Atômica, em Hiroshima, alerta contra a guerra atômica.