O grande circo místico

Autor de roteiros e filmes premiados, como ‘Pixote, a lei do mais fraco’ e ‘A cor do seu destino’, o diretor chileno Jorge Durán volta a debruçar-se sobre o misticismo brasileiro em ‘Não se pode viver sem amor’, que estreia hoje no Rio

 

Quando Jorge Durán chegou ao Brasil, em 1973, uma das primeiras coisas que o então jovem  ator e aspirante à cineasta chileno visitou foi um terreiro de umbanda, no Rio. A parada seguinte na imersão do recém-chegado nas idiossincrasias da cultura brasileira foi conhecer a Mãe Menininha do Gantois (1894-1986), a iyálorixá baiana.

– Primeiro, me levaram para conhecer um pai de santo famoso, no Largo dos Leões, que até recebia estrangeiros. Depois, fui à Bahia – conta o realizador de 69 anos, autor de roteiros de sucessos do cinema brasileiro, como Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (1977) e Pixote, a lei do mais fraco (1981). –  Fui por curiosidade, mas também com um pouco de receio. O que era aquele mundo, tão diferente do chileno?

Assombrado pela ditadura militar, o Chile da época vivia um momento do terror concreto, onde “pegar santo era ser epiléptico, e falar pelos mortos, como Chico Xavier fazia, era ser esquizofrênico”, como lembra o diretor radicado no Brasil. Mas logo Durán pegaria o espírito da coisa e usaria o que aprendeu sobre o sincretismo religioso brasileiro em O escolhido de Iemanjá (1978), seu primeiro longa como diretor. No filme, Nuno Leal Maia interpreta um pescador de uma favela carioca escolhido por um pai de santo para resolver uma pendenga com uma construtora, que realiza explosões próximas à comunidade.

– Naquele período, a umbanda estava impregnada no Rio e no país – observa Durán. – Mas o brasileiro parece que perdeu este misticismo religioso, que era muito mais visível até nas encruzilhadas. Ele deixou de ser explorado até pelo cinema. O último filme que lembro sobre o tema foi Prova de fogo, do Marco Altberg. Nele, havia até um sociólogo que toma contato com o candomblé e descobre o seu lado paranormal. Imagina, um acadêmico que se relaciona com o oculto!

O longa de Altberg descreve a trajetória de Mauro (Pedro Paulo Rangel), um imigrante nordestino no Rio que larga o emprego no banco para desenvolver seus poderes mentais. Nesse caminho, passa a frequentar um terreiro e se envolve com uma mãe de santo, interpretada pela atriz Maitê Proença, então estreando no cinema.

– O filme representava muito bem o Brasil que vi naquela época. Mas este misticismo todo não existe mais, sumiu um pouco, foi para o interior da Bahia, de Pernambuco, e de São Paulo. Ele foi substituído pelo espiritismo – observa.

Este é um dos motivos pelos quais a campanha de lançamento de Não se pode viver sem amor, o novo filme de Durán, que chega hoje ao circuito carioca, ignora os elementos paranormais de seu enredo. 

– Muitos filmes já trabalham o espiritual. Preferi focar na história de amor. O título deixa isso muito claro – explica.

Premiado no Cine PE, de onde saiu com o prêmio especial do júri, e no Festival de Gramado, onde cravou os Kikitos de fotografia (Luís Abramo), roteiro (Dani Lima e Durán) e atriz (Simone Spoladore), Não se pode viver sem amor é uma peça singular dentro do conjunto da obra de Durán. Aqui, o autor de A cor do destino (1987) e Proibido proibir (2007), retratos de uma juventude em choque com a herança política, entrelaça o destino de cinco personagens em torno de um deles, Gabriel (Victor Navega Mott), um menino que se revela dotado de poderes paranormais. Trocou a utopia pelo metafísico.

– Depois de Proibido proibir, me deu vontade de fazer um filme adulto, sobre pessoas que enfrentam o mundo como ele é e como se encaixam nele – argumenta o diretor. – Estava um pouco cansado do realismo social, entre aspas. Queria abraçar o universo do fantástico, do misterioso, dos eventos que acontecem na natureza e que são inexplicáveis, como as tsunamis. 

Concebido como um filme coral, em que núcleos diferentes compartilham de inquietações comuns, Não se pode viver sem amor almeja a crença no milagre. O desejo é comungado por Pedro (Ângelo Antônio), um físico indeciso entre uma relação amorosa e uma carreira no exterior, João (Cauã Reymond), advogado  que é cooptado pelo crime. Há também Roseli (Simone), uma jovem artesã que se propõe a ajudar o pequeno Gabriel a encontrar seu pai. Nas vésperas do Natal, eles encontraram a resposta que procuram nas ruas e ladeiras do Centro do Rio.

– Minha maior dificuldade foi fazer com que os personagens transitassem de um realismo não natural para o sobrenatural, culminando com o milagre – reconhece o agnóstico (porém supersticioso) Durán, que enxerga pelo menos uma ligação clara do novo filme com os dois anteriores. – A cor do seu destino fala sobre um estudante colegial; Proibido proibir é protagonizado por estudantes universitários, neste, há um advogado recém-saído da universidade. Percebe-se uma evolução entre eles. É aprova  de que a gente nunca abandona um sistema de pensamento. O meu envolve memórias, entidades, famílias, elementos que são mais caros ao coração.