Crítica | Não se pode viver sem amor | Almas em busca de afago

É fácil reconhecer os méritos do ótimo Não se pode viver sem amor. Seu diretor, Jorge Durán (autor de filmes como A cor do seu destino, e roteirista de títulos como Pixote –  A lei do mais fraco e Jogo subterrâneo), pratica um cinema eficiente, livre das amarras comerciais (portanto longe, bem longe, da obviedade narrativa) e apaixonado pela rua. Embora comece no interior, simples e austero, a história se passa inteiramente nas ruas e ladeiras do Centro do Rio, da Saúde e São Cristóvão. 

O roteiro de Durán e Dani Patarra conectam almas diversas, todas em busca de algo que lhes afague o peito: nada menos que amor. Um menino em busca do pai, um professor de física às voltas com a namorada que não quer segui-lo até a Suíça, um desempregado tentando convencer uma prostituta a se casar com ele. Todos esses vão se encontrar em algum ponto, às véspera do Natal, embora comecem entregues à sorte. 

É difícil imaginar Fabiula Nascimento como prostituta (em qualquer filme, diga-se), ou Cauã Reymond como o desempregado que apela para o crime para sobreviver e conquistar a mulher amada. A direção de Durán faz com que suas aparições não se tornem maiores que o conjunto e os dois, bonitos, cumprem suas obrigações perfeitamente, sem vacilos. Da mesma forma fazem Ângelo Antônio (perfeito, como sempre) e Rogério Fróes (pouco em cena, mas efetivo), dois atores calejados e entendedores de que atuar em cinema não carece de histeria. Simone Spoladore, discreta, também não foge à regra.

A vida, ou melhor, o roteiro de Durán/Patarra, se encarrega de promover o encontro de todos esses entes em torno de um defunto, e dos poderes, digamos, místicos do menino que procura o pai. Sem usar o flashback (muleta retórica de 100 em cada 100 roteiristas), Não se pode viver sem amor conta uma história, pasmem, com início, meio e fim. E deliciosa.