Dom Eugenio Sales: Tempo de graça

Neste domingo iniciaremos com o Domingo de Ramos a grande semana da Quaresma, a Semana Santa. Ela encerra um período que nos ajuda a entender a grandeza da Redenção alcançada pela Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo. Neste dia somos convidados a contribuir, nas missas, com a coleta anual da Campanha da Fraternidade.

A Quaresma, segundo o santo padre Bento XVI na sua mensagem anual para este período, é um caminho que conduz à Páscoa. Nele somos chamados a uma “transformação pela ação do Espírito Santo; a orientar com decisão a nossa existência segundo a vontade de Deus e a libertar-nos de nosso egoísmo, abrindo-nos à caridade de Cristo”. 

No Domingo de Ramos iniciamos as comemorações da vitória de Jesus em Jerusalém, aclamado pela população, e o anúncio da morte, com a leitura da paixão. As palmas, guardadas, lembram o triunfo definitivo do Salvador, e, com ele, de todos nós. Na Quinta-Feira Santa, pela manhã, o bispo celebra a Missa do Crisma com seu presbitério.

À tarde, começa o Tríduo Pascal, ao reviver a Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor, o cume de todo o ano litúrgico. Celebra-se a memória da Ceia do Senhor, na qual a comunidade católica comemora a instituição da eucaristia e o lava-pés, com eloquente apelo ao serviço da caridade, estimulado pelo Senhor, que “veio não para ser servido, mas para servir” (Mt 20,28).

A seguir vem a adoração ao Santíssimo Sacramento, como oportunidade de manifestar nossa fidelidade ao Mestre e de poder participar de seu sofrimento como esperança de vitória sobre o mal.

Na Sexta-Feira Santa, quando “Cristo, nossa Páscoa, foi imolado” (1Cor 5,7), segue-se a veneração da Cruz, que se impõe diante de nós, influenciando todo o nosso comportamento. A importância da penitência na vida do cristão é ininteligível num ambiente dessacralizado. A chamada adoração da Cruz marca uma linha divisória com esse mundo que busca o prazer como meta preferencial.

Antigamente, o caráter festivo da Ressurreição era antecipado para a manhã do sábado. Com a renovação litúrgica, todo esse dia, até ao pôr do sol, é reservado ao silêncio e à meditação. O túmulo continua fechado. “O percurso quaresmal encontra seu cumprimento (...) na grande vigília da noite santa. Renovando as promessas batismais, reafirmamos que Cristo é o Senhor da nossa vida (...) e reconfirmamos o nosso compromisso em corresponder à ação da graça” (nº 2). 

Sem dúvida, cada fiel, consciente de seu papel na sociedade, pode viver este momento como irradiador da mensagem salvífica que há de ser valorizada cada vez mais em nossos dias. O cristão, portanto, como fermento, não pode assumir atitudes contrastantes com a santidade. Por sermos membros de Cristo, conforme a expressão de São Paulo “ele é a cabeça da Igreja, que é seu corpo” (Cl 1,18), jamais poderemos negar as consequências práticas desse liame profundo.

A Semana Santa se assemelha a um retiro espiritual, no qual cada um examina seu procedimento, revigora sua opção por Cristo, feita no batismo e tantas vezes renovada. Algumas indicações práticas para um comportamento cristão na Semana Santa, especialmente no Tríduo Sagrado, são importantes e necessárias. 

A participação assídua aos ofícios litúrgicos nos enriquece espiritualmente. Eles são de uma beleza espiritual rara. Integram o tempo penitencial e, para quem se encontra isolado, sem igreja nas proximidades, a leitura dos textos litúrgicos, que acompanham os ritos celebrados nos templos, deve servir para avivar sua piedade.

A confissão sacramental, enquanto purificação de nossas faltas abre as portas à eucaristia, presença viva de Jesus, vitorioso sobre a morte. Ela é indispensável à vida cristã.

Por fim, o recolhimento interior e também exterior propicia a participação nesse mistério de morte que trouxe a vida ao mundo. Somos convidados, através da liturgia, a conhecermos mais os mistérios divinos que celebramos e entrarmos neles com redobrado empenho. A Semana Santa é para nós tempo de graça, fonte de vida, salvação da humanidade.