Celso Franco: Trânsito em foco

Nem tudo está nos currículos

Ultimamente, têm aparecido, na mídia escrita, diversas declarações, eminentemente teóricas, de eméritos professores, sobre as dificuldades do trânsito pátrio, na busca por criar uma doutrina nacional. Por causa disso, resolvi analisá-las sob o ponto de vista prático profissional

Na edição do JB de 3 de abril, um professor da Coppe, declarava: “É um grande equívoco dizer que os ônibus atrapalham o trânsito. As pessoas podem comprar carros. A indústria precisa vendê-los, mas seu uso tem de ser racionalizado. É preciso fazer campanhas educativas e investir em transporte público”.

Claro, professor, o espaço público tem 80% utilizados pelo carro e, apenas 20% para o transporte público de superfície. É por isso que venho propondo, há mais de 10 anos, a adoção do sistema URV. Com ele, se institui a taxa de congestionamento para coibir o tráfego de carros, nas horas de pico, transportando somente o seu motorista – hoje, cerca de 95%. Desculpe, mas, não existirá nenhuma campanha educativa para  o passageiro, pessimamente transportado no nosso precário sistema de transporte público, deixar de usar o seu carro. Muito pelo contrário, ao lado das imensas facilidades de pagamento para a sua compra, o suplício de depender do transporte público é o maior agente de venda no comércio de carros.

Quanto ao investimento no transporte público, justiça se lhe faça, o poder público tem se esforçado para melhorá-lo, em que pesem os altos custos e as enormes dificuldades criadas pelos interesses contrariados. Além disso, mesmo superando-se esses obstáculos, existe o fator tempo para a construção das novas linhas de metrô e as dificuldades de espaço para implantação dos BRS.

Outro professor, este da UFRJ, enfatiza o aumento do número de carros que entram em circulação por ano e as dificuldades geradas pelas enormes distâncias entre as moradias e o local de trabalho.

No Rio, são emplacados 60 mil carros por ano, ou seja: até que, por exemplo, a Linha 4 do metrô, que irá servir à Barra, esteja construída, teremos mais 300 mil carros circulando. Desse total previsto, que percentual estará na Barra, o bairro que mais cresce na cidade?

Quanto às distâncias entre o local de moradia e o de trabalho, fruto da falta do controle do uso da terra e da densidade de ocupação, é absolutamente utópico tentar revertê-la a esta altura do currículo.

Essa realidade catastrófica é que me dá a esperança, se vida eu ainda tiver, de ver o clamor público, expresso nas urnas, vencer a covardia política que impede a adoção lógica e socialmente justa do sistema URV, capaz de gerar além de espaço nas vias urbanas, recursos elevados para subsidiar o nosso vergonhoso transporte público, o segundo item dos gastos familiares do assalariado.