Carlos Eduardo Novaes: Voleibom

É uma pena que só aqueles que possuem TV a cabo tenham o direito – e o prazer – de desfrutar dos jogos da Superliga de Vôlei (masculina e feminina). Nosso voleibol alcançou um nível de qualidade técnica de matar de inveja nosso futebol, que não anda lá muito bem das pernas (quem sabe a garotada que vem por aí?). Afirmo, sem medo de sacar para fora, que no momento somos muito mais um país do voleibol do que do futebol.

É claro que o futebol continua sendo a paixão nacional, mas muitos desses apaixonados estão arriscando um olhar concupiscente para o vôlei – principalmente para o vôlei feminino, onde a bola permanece mais tempo no ar. Os ginásios enchem nessas finais da Superliga, e os jogos não decepcionam àqueles que desprezam uma partida de futebol girando o seletor de canais para assistir Osasco e Vôlei Futuro.

No vôlei não tem camisa nem manto sagrado. Não tem Flamengo nem Corinthians (o que só valoriza sua popularização). Tirando os familiares dos atletas e os executivos das empresas patrocinadoras, o telespectador – pelo que vejo na Clã Destino – escolhe na hora para quem vai torcer. Tanto pode escolher o time em função de suas apostas, como pode ser movido por algum personagem que o faça suspirar. Não são poucas as gatinhas que torcem pelo Sesi por causa do treinador, Giovane Gavio. Gaguinho, maítre da casa de apostas, não perde um jogo do Vôlei Futuro, sempre reclamando que a TV focaliza pouco a Paula Pequeno.

A pergunta que todos fazem na Clã Destino é: por que as emissoras abertas não transmitem a Superliga? Especula-se que elas ainda pensam que o vôlei dá tanto ibope quanto o handebol. A maioria porém aposta que o Sportv guarda todas as bolas de vôlei no seu deposito e não empresta para ninguém. 

De duas semanas para cá, a TV Globo incluiu um jogo de vôlei na sua grade, nas manhãs de sábado. Com certeza, tal inclusão não decorre de um buraco na programação. Como a emissora não prega prego sem estopa (como diria minha avó Eduarda), desconfio que ela já farejou o sucesso do esporte. Ou então está se penitenciando por ter sabotado o vôlei – e o público – no Mundial de 1982. Escrevi uma crônica a respeito e fui buscá-la em meus arquivos. 

Deu-se que liguei no Jornal Nacional – ainda não havia canais a cabo – para saber o resultado do jogo de estréia do Brasil, e a única notícia de esportes informava sobre um concurso hípico em Juiz de Fora. Dois dias depois, o Brasil jogou com os tchecos, e o Jornal Nacional nada. Será que esqueceram de avisar à Globo do início do Mundial?

Fui à emissora – conto na crônica – e encontrei um ex-colega do JB que me disse:

– Aqui nós não gostamos de vôlei. Nem fala essa palavra aqui dentro.  

– Mas está havendo um Mundial e...

– Para nós, o Mundial de Vôlei não existe. É invenção da TV Record.

Compreende-se: na época a Record detinha a exclusividade para transmitir o torneio, e a Globo de birra resolveu ignorar completamente o evento. Fechei a crônica com um comentário que me pareceu apropriado: “Ainda bem que o Papa não tem contrato de exclusividade com a Bandeirantes”.

P.S.: Veja essa crônica de 1982 em meu blog.