Anna Ramalho: Respeitem Maria Bethânia!

Que o Brasil é o país das grandes cantoras populares a gente já sabe. É desde sempre. O Brasil de Dalva de Oliveira, de Linda e Dircinha, de Marlene e Ângela Maria, de Claudete Soares e Helena de Lima e de tantas outras que brilharam  na era do rádio e da incipiente televisão dos anos 50 e 60.  Mais tarde, de Elis Regina, de Nara Leão, de Gal, de Simone. O Brasil de hoje continua sendo das cantoras – em número, não posso apostar, mas acredito que sejam mais do que o dobro de homens cantores. São tantas e aparecem a cada dia tantas, que parei na Vanessa da Matta, de quem, aliás, confesso,  nem conheço o repertório. E não vai aí qualquer desprezo, pelo amor de Deus. Simplesmente me perdi – as coisas correm muito rápido nos dias de hoje e dizem que o tempo passa mais rápido ainda à medida que envelhecemos. Deve ser isso. Das “novas”, a que ouvi um pouco mais foi Marisa Monte, que gosto muito, diga-se. E tenho uma admiração toda especial por Adriana Calcanhotto, que vi estrear – mesmo, primeira vez que a gaúcha se apresentava no Rio – no saudosíssimo Mistura Fina, ainda em Ipanema.

No meu altar particular, a Santíssima Trindade musical é formada por Maria Bethânia, a Abelha-Rainha, Nana Caymmi ( nossa  Billie Holiday tropical) e Elizeth Cardoso, a Enluarada, a Magnífica. 

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Posto isso, quero dizer que toda essa conversa sobre cantoras tem a ver com dois fatos: os gloriosos 70 anos de Nana Caymmi - dia 29 próximo - e todo este trololó de Lei Rouanet que usaram para conspurcar o nome de Maria Bethânia.

Há tempos escrevi aqui mesmo sobre o espetáculo Palavras, no qual ela recitava Fernando Pessoa e, ao seu modo, dava enorme contribuição à nossa tão mal tratada língua portuguesa – que poucos sabem falar e pouquíssimos sabem escrever. Na beira do palco do Teatro Fashion Mall, onde Bethânia foi literalmente encurralada depois do espetáculo por pessoas que queriam cumprimentá-la, ouvi, com estes ouvidos que a terra há de comer, uma professora agradecendo a apresentação que ela tinha feito na PUC do Rio ( gratuitamente, tá, gente?) e pedindo que agendasse outros, o que ela prontamente aceitou e acrescentou: “Tenho ideia de fazer isso pelo Brasil todo, mas, para isso, preciso de patrocínio...”).

Meses depois, vem este escândalo. Muito bem: o que se passa, e tenho fontes seguras na área, nada mais é do que, digamos assim, uma picuinha burocrática de quinta. Funcionários insatisfeitos da gestão anterior, que não conseguiram permanecer no novo governo, acharam por bem dar uma sacaneada na nova Ministra da Cultura e usaram o projeto de captação de Bethânia para celebrar o mau intento. Como é de domínio público, todo o mundo artístico capta horrores com base na Lei Rouanet: o mesmo Diário Oficial que publicou o R$ 1,3 milhão para o projeto de Bethânia, Andrucha Waddington e Hermano Vianna ( também  pessoas seríssimas) revela a autorização para captar quantias muitos superiores para outros artistas da MPB. Para uma delas, R$ 4 milhões -  e não digo o nome porque não interessa. Estamos falando de arte e não de anões do orçamento, máfia dos sanguessugas, mensaleiros do mensalão e bandalheiras do gênero.

Maria Bethânia não precisa dessas coisas. É claro que ela seria remunerada por seu trabalho, não haveria por que trabalhar de graça se houvessem patrocinadores dispostos a bancar um projeto belíssimo e trabalhoso. Maria Bethânia é rica, ganha muito bem, e, mesmo assim,  vive muito simplesmente, muito discretamente, na mesma casa que tem há mais de 30 anos. Ela não tem jatinho como a turma do axé. Não abre a casa para revista de celebridades, não dá pinta de desfrutável por aí. Maria Bethânia é mulher séria, direita. Vai ver que foi por isso que caíram em cima dela. Bethânia foge da gratuidade dessa vida deslumbrada e vazia.

Sei bem que a patrulha dos ressentidos vai cair em cima de mim. Tô nem aí. Mas não podia ficar calada. Por favor, respeitem a grande dama, a enorme, a digna artista que é Maria Bethânia Vianna Telles Velloso, que há 46 anos só nos dá alegria e prazer com a sua arte .

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E também viva  Nana Caymmi e seus abençoados 70 anos!!!! Que ela possa nos encher de deleite por muitos e muitos anos.