Sergio Sebold: O efeito da “economia de cassino”

Nos tempos das altíssimas taxas de inflação, anteriores a 1994, observava-se uma prática nas empresas bem capitalizadas, que a conta Receitas Diversas da demonstração dos Lucros e Perdas, em muitos casos, era até superior a Receita de Vendas, esse o principal objetivo empresarial. Estas receitas diversas eram na realidade aplicações no mercado financeiro que ofereciam ganhos mais atraentes do que seu próprio negócio.

O valor dos estoques pelo seu lado, era composto por itens tecnicamente elevados pelo seu tipo ou setor empresarial. Tudo isto como uma proteção à inflação avassaladora, onde os economistas diziam, quando a moeda perde seu valor intrínseco, os bens passam a ter valor maior do que a própria moeda. Neste contexto, era preferível ter altos estoques, porque estes valorizavam a cada dia que passava desde que o mercado fosse favorável.

O surpreendente agora com inflação baixa, volta-se a esta mesma prática comercial, mas com outra roupagem. Como as empresas apresentam um risco bem menor do que as pessoas físicas, os bancos oferecem empréstimos, até subsidiados pelo governo, a juros generosos próximo de zero. Diante deste contexto as empresas comerciais, principalmente, tomam dinheiro emprestado, e oferecem aos seus clientes numa autêntica operação paralela a suas atividades normais, agora a juros exorbitantes. A questão: de onde vem tanto dinheiro assim?

Voltando um pouco à história. A euforia que criou a bolha financeira e, após seu estouro em 1929, pela quebra da Bolsa de Valores de Nova York, este evento foi considerado por muitos historiadores, como exemplo do fracasso do liberalismo até então vigente. Sem perda de generalidades, a proposta keynesiana na década de 30 do século passado para reerguer o sistema, foi a necessidade de uma regulamentação do Estado sobre o comportamento da economia como um todo.

Segundo este modelo, os investimentos e créditos deveriam vincular à esfera produtiva, fato que alavancou o crescimento econômico das então nações industrializadas, favorecendo as políticas de pleno emprego dos fatores e melhor distribuição da renda. 

Graças a estas medidas que regulavam a economia centrada agora na produtividade, a esfera financeira não se contaminou pela febre histérica de cassinos através das Bolsas. A ordem monetária pela paridade fixa no câmbio das moedas e, a conversão de uma para outra, obedecia a certas restrições. Finalmente os créditos internacionais eram vigiados por relações intergovernamentais, em geral vinculados a projetos de desenvolvimentos, mais particularmente pelo FMI, Bird, Gatt (Hoje OMC), após a Segunda Guerra Mundial. 

A pressão do capital privado a partir da década de 70, fez com que os países capitalistas, abrissem as amarras que os prendiam exclusivamente à esfera produtiva. 

A mundialização da economia permitiu que este capital, caísse na farra internacional, onde não há restrições legais e são mais fáceis de burlá-las dos controles dos organismos acima citados, tudo isto num tiroteio financeiro, protegidos em paraísos fiscais. 

Resumindo, o mercado mundial sendo controlado por empresas transnacionais lhes garante lucros exorbitantes em prejuízos das nacionais, e não por aumento da produtividade. Com colossal poder, forçam governos a privatizar patrimônios públicos e submetem os empreendimentos privados nacionais às fusões e incorporações para concentrar e acrescentar cada vez mais capitais aos seus domínios.

Nesse cassino global a especulação superou a produção. Logo, este capital especulativo vai alimentar com dinheiro fictício o sonho de milhões de consumidores,  diminuindo a possibilidade de remunerar o trabalho produtivo, aumentando cada vez mais a concentração de rendas. 

Sergio Sebold é professor do Instituto Catarinense de Pós-graduação dde Blumenau (SC)