José Sarney: A China e seu dragão

N uma visita a Veneza, há muitos anos, o professor Lorenzo, da universidade local, de grande cultura geral, ao nos mostrar, na confluência de dois canais, um prédio histórico com um domo, disse-nos como se fosse uma informação preciosa: "Foi aqui que Marco Pólo mostrou à sociedade de Veneza o garfo, que tinha trazido da China. Foi uma revolução de hábitos que invadiu o ocidente".

Minha resposta a ele foi que, mesmo descobrindo o garfo, eles continuaram a comer com dois pauzinhos. Essa historieta pessoal e de circunstância me induz a falar do colosso chinês no momento em que a nossa presidente visita aquele país. 

Quando falo da China, sempre deixo que minha imaginação reflita sobre a poderosa e multimilenar cultura chinesa e esse povo fundador da aventura do homem na face da terra. 

Hoje são bilhão e cerca de mais trezentos milhões, com grande parte do seu território desértico, falando mais de cem línguas, unificadas pela palavra escrita do mandarim, a conviver com uma história de espoliação, exploração, ocupações, massacres, saindo nos tempos modernos para ocupar dentro de algumas décadas o lugar de primeira potência mundial. 

A geração de velhos líderes chineses de quem fui amigo já foi embora, a começar pela figura inolvidável de Deng Xiaoping. Propus em seu tempo uma relação estratégica com a China e chegamos mesmo a assinar acordo de lançamentos de satélites de sensoriamento remoto em parceria de nossos países. Deng respondeu-me com franqueza que a confiança e a amizade dependiam de tempo e esse tempo não havia chegado. 

Em 1994, numa nova viagem à China, fui hóspede do prefeito de Xangai e futuro primeiro-ministro, Zhu Rongji, de quem fiquei amigo, e que me dizia que o tempo de trabalharmos juntos estava chegando. 

Agora Lula criou o Brics, com a ideia de juntarem-se os países emergentes, e a Presidente Dilma comparece a uma reunião importante para consolidar o grupo. 

Nossa presidente não encontra problemas, num momento em que todos se protegem contra a invasão do comércio chinês –nós também – e o câmbio que insistem em manter baixo, tornando quase impossível a competição com o resto do mundo; mas nossa balança com eles é positiva, graças às commodities. 

Helmut Schmidt dizia-me que o século 21 será da Índia: os chineses não atravessaram o gargalo político nem a barreira dos ideogramas, enquanto os ingleses deixaram aos indianos o inglês, língua universal, e instituições políticas. 

Mas nossa presidente vai dizer aquilo que estamos pensando: o Brasil também está na disputa de ser estrela no século 21.