Mutirão comovido

Tragédia em Realengo leva mais de mil pessoas a doar sangue no Rio

Os 16 adolescentes feridos pelo atirador que matou outros 13 dentro da Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo (Zona Oeste), ontem, provocaram uma corrida solidária ao Hemorio. Exatas 896 pessoas, até às 17h30, foram doar sangue para ajudar na recuperação das 13 meninas e três meninos atingidos por Wellington Menezes de Oliveira. Outros 494 cidadão ainda aguardavam a vez.

Ex-morador de Realengo, Caio Thompson, de 18 anos, disse, quando já esperava por mais de uma hora na fila, que a infância vivida no bairro o motivou à doação.

– A vida toda desejei doar sangue, mas só agora, que atingi a idade permitida, pude vir. Infelizmente realizo meu sonho em um momento de pesadelo. Essa escola fica perto da rua em que eu morava. É uma situação horrorosa. Nada explica um absurdo tão grande como este. 

Professor de Educação Física das redes de ensino estadual e municipal de Nova Friburgo, Marcelo da Costa Neves, 24 anos, sentiu-se obrigado a comparecer ao Hemorio para deixar sua contribuição. Familiarizado com a insegurança reinante em parte das escolas da cidade, ele justificou sua atitude e desabafou:

– Cedo ou tarde isso iria acontecer – lamentou o docente do Colégio Estadual Bom Pastor, em Belford Roxo. – Trabalhamos sem segurança nenhuma. Cansei de não poder dar aula nas quadras devido aos tiroteios. Quando soube da tragédia, aproveitei que estava no Rio de Janeiro e vim doar.

Deitado na poltrona para coleta de sangue, o garçom Sérgio Henrique de Souza Delfino, morador na Ilha do Governador, disse ter pensado em doar sangue antes mesmo do apelo feito pelo Hemorio.

– Quando vi o tamanho da tragédia, me coloquei no lugar dos pais que perderam suas crianças, em sua dor. Nem quero pensar que uma tragédia dessas poderia acontecer na escola de um dos meus três meninos.

No final da fila, ainda no início da espera que prometia superar três horas, a comerciante Isabel Cristina Almeida, de 50 anos, disse que a tragédia de Realengo foi o “empurrão” que precisava para doar sangue.

– Eu sempre pensei em vir ao Hemorio. Mas por conta da minha loja, obrigações e compromissos, adiava a vinda. Mas hoje (ontem), diante dessa atrocidade, não tive escolha. Acho que por serem crianças, mexe mais com a gente.

Estímulo

Chefe do setor de promoção a doação de sangue do Hemorio, a enfermeira Neusimar Carvalho, há 23 no instituto, comemorou o grande número de doadores. Mas chamou a atenção para a carência de doações.

– O brasileiro é muito solidário. Fica evidente nesses momentos de tragédia. Foi assim quando das chuvas na Região Serrana, está assim agora – destacou. – No entanto, falta o hábito de doação. Por que esperar uma tragédia para sentir-se estimulado? Não existe sangue artificial. Doar precisa ser um hábito, a cada três meses.

Durante a tarde de ontem, a espera na fila do Hemorio, na Rua Freicaneca, chegou a até quatro horas. Vale dizer que quem preferir pode fazer sua doação hoje, amanhã ou domingo.