Entrevista | Ilana Casoy: Por dentro da mente criminosa

Especialista em comportamento de assassinos em série fala do perfil do atirador do Realengo

Os mistérios por trás da motivação de Wellington Menezes de Oliveira, atirador que invadiu, na manhã de ontem, uma escola municipal no Realengo, Zona Oeste do Rio, e deixou, até o fechamento desta edição, 13 adolescentes mortos, são um mistério para os especialistas. Em entrevista ao Jornal do Brasil, Ilana Casoy, especialista em criminologia e autora dos livros Serial killer - Louco ou cruel? e Serial killers – Made in Brasil descreve o perfil do atirador, fala da comercialização de armas no país e relembra caso semelhante ocorrido há dez anos, na Bahia. 

Qual a diferença entre esses assassinos que matam várias pessoas de uma vez e os serial killers clássicos?

Assassinos em série matam vítimas de mesmo perfil, com motivo simbólico e intervalo de tempo entre um assassinato e outro. Já os em massa matam quatro ou mais vítimas, em um só local, um só evento, em uma explosão de violência. Agem, em geral, contra um grupo que supostamente o oprimiu, ameaçou ou rejeitou. São, na maioria, do sexo masculino, brancos, conservadores e costumam ter histórico de humilhações. A explosão deles se dá, em geral, contra o grupo que responsabiliza pela opressão, rejeição ou ameaças que sofreu. Normalmente se suicidam após sua ação, sempre de grande impacto.

Atiradores em escolas já agiram muitas vezes nos Estados Unidos e em outros países. Isso já aconteceu aqui no Brasil?

Aqui já havia ocorrido em 2002, em uma escola na Bahia. O atirador era menor de idade  e foi tratado, junto com sua família, por profissionais multidisciplinares. Até hoje, que se saiba, não cometeu mais crime algum.

Há semelhanças entre o atirador deste crime e aquele que invadiu uma escola em Columbine, nos EUA, em 1999?

Sim, estamos falando do mesmo perfil de agressor e comportamento criminoso, que planeja uma ação pseudo-militar com grande potencial ofensivo.

Eles são influenciados por crimes assim praticados anteriormente?

Podem ser influenciados na forma, mas sua estrutura mental provavelmente já estava bastante danificada. Ninguém comete um crime desse porte de um dia para outro.

Há um paralelo entre o crime do Rio e o do jovem que matou várias pessoas num cinema de shopping em SP?

Ambos são assassinos em massa e planejaram ação de grande impacto, como de regra. Mas precisamos ainda pesquisar a motivação do crime e o histórico do Atirador do Realengo.

O fácil acesso às armas de fogo no Brasil facilita este tipo de crime?

O fácil acesso à armas facilita a criminalidade de forma geral. Isto ficou comprovado em São Paulo, onde o desarmamento rigoroso da população diminuiu as taxas de criminalidade. Assassinatos em série são raros, mas em lugares onde a execução de uma “fantasia” é rápida, ou seja, onde é fácil o acesso às armas ilegais ou legais (como nos EUA), eles acontecem mais freqüente.

Conhecidos do assassino afirmam que ele não tinha amigos e passava muito tempo na internet. Como a sra. relaciona essas informações com o crime?

É o padrão estatístico da maioria dos assassinos desse tipo: indivíduos isolados, perturbados e cada vez menos conectados à realidade.

A irmã do criminoso afirmou, em entrevista, que ele era ligado ao islamismo. Qual a sua opinião?

O fato de ser ligado a esta ou àquela religião não tem necessariamente conexão com o crime. Já houve muitos crimes em nome de religiões, mas não porque a religião seja violenta, e sim porque o indivíduo é perturbado e percebe isso de modo distorcido. A causa é a mente do criminoso, e não a religião.