Crítica | Que mais posso querer | Adultério banal

Casais que levam vidas normais e que, de repente, se veem desestabilizados por um romance proibido, arrebatador, etc. O diretor Silvio Soldini faz o melhor que pode para ressuscitar uma premissa manjadérrima sob o manto do “realismo de ontem”: filmado em Milão, tudo parece ter sido registrado semana passada, para que o espectador chegue à conclusão de que “puxa, realmente, essas coisas acontecem na vida”. Acontecem, claro. Mas diferentemente das novelas de Manoel Carlos, o adultério, aqui, não é punido.

Ana é uma contadora sem filhos que bateu de frente com os 30 anos; vive com o namorado gordinho boa gente, a vida é mansa, tudo está em paz. Chega então Domenico – boa pinta, como só – e toda a tranquilidade da vida com o gordinho fica no passado. O que mais posso querer, talvez rápido demais, se estabelece como uma crônica do “romance proibido ameaça status quo”. Soldini, mais chegado à câmera do que ao diálogo, fia-se nos atores e na atmosfera criada por ambos para quando os momentos em que, no meio do caos da vida cotidiano, “os amantes se encontram”. Paira a certeza de que romances proibidos devam ser muito mais interessantes e atraentes do que o descrito no filme de Soldini.

Espera-se ao final que um cônjuge traído, em fúria (como é de se crer), mate todo mundo ao som de violinos. Nada feito. Uma lição de moral madura e neutra? Sem chance. Temperadinho com cenas de sexo mais-tórridas-e-reais-do-que-o-convencional, O que mais posso querer está disfarçado com as melhores intenções, mas permanece como um embuste de primeira ordem.