Crítica | Contracorrente | Singelo e um pouco cafona

A grande demonstração de tino e senso de direção que um cineasta pode dar é ressuscitando antigos signos, repastando em fórmulas dramáticas, dando-lhes um verniz de novidade sem parecer demasiadamente congratulatório e boçal para com os “mestres”. O peruano Javier Fuentes-León parece ter compreendido as medidas exatas de como fazê-lo quando tece sobre a vida amorosa de um pescador e um fotógrafo numa vila litorânea no Peru. Premiado no festival de Sundance (2009), seu filme, Contracorrente, é, numa definição rasteira, um drama gay espírita. Como diabos um diretor – e aqui também roteirista – consegue desembrulhar uma charada dessas?

Miguel é uma espécie de guia moral da vila onde mora. Prestes a ser pai, recebe os membros da paróquia no domingo para o almoço. Pesca, faz amor com a esposa, encomenda o corpo de um primo. Como quem não quer nada, vez por outra Miguel escapa para uma construção abandonada ou um canto deserto de praia para (perdoem) ser pescado: ele tem um romance secreto com Santiago, um fotógrafo dublê de pintor que está apenas de passagem pela vila. A vida é boa, Miguel. Enquanto deixa que seus amantes se amem, o diretor Fuentes-León pinta o fundo moral: os parceiros de Miguel, a fofoqueira da Vila, a Velha Cozinheira Sábia, todos, quase em uníssono, declaram Santiago um maricón, portanto, para eles, uma ameaça à paz (católica) da localidade.

Santiago desaparece, Miguel fica desconsolado. O suspense não dura muito, mas é de propósito sua curta duração: não interessa o tempo que o amante some, interessa que ele retorne, e o faz morto, ou melhor, em espírito. Como bom fantasma, ele só pode ser visto pelo amante. O romance, vá lá, adequa-se à nova realidade, a vida segue. Eles passeiam de mãos dadas, brincam na praia. Não é o recurso mais original de que se tem notícia, mas, e de novo, a maneira como Contracorrente explora a presença ativa de um fantasma para a solução do drama.

O romance cai na boca do povoado, mesmo com Santiago morto. A mulher de Miguel, menino debaixo do braço, o abandona. Os amigos e vizinhança acompanham. Segure a lágrima furtiva, insistente, querendo correr no canto do olho: Miguel consegue o perdão de todos, e sai a velejar para entregar seu amante ao mar. Agora, sim, pode derramar aquela lágrima. Contracorrente, dizem os maldosos, é uma versão gay-latina-brejeira de Ghost. Maldade, como se vê. Trata-se de um drama singelo. E só um pouquinho cafona.