Continuidade ou decisão de ruptura?

Grupo Galpão encena ‘Tio Vânia’, de Tchekhov, revelando adesão a uma dramaturgia realista até então distante de suas escolhas

Ao escolher Tio Vânia como novo projeto, o Grupo Galpão parece dar uma guinada em sua carreira. Afinal, a companhia costuma caminhar em sentido distante do da dramaturgia de um autor realista como Anton Tchekhov. Mas Yara de Novaes – diretora da encenação que, apresentada de hoje até domingo no Festival de Curitiba, deverá chegar ao Rio em agosto – não vê a opção pelo texto do autor russo exatamente como uma transição no percurso da companhia.

– Apesar de ser um grupo identificado com a rua, o Galpão inaugura expectativas e procura zerar a cada empreitada – avalia Yara, que trabalhou como atriz com a trupe na montagem de O inspetor geral. – Neste momento, os integrantes quiseram verticalizar a relação entre ator e personagem. 

A aposta é na conexão entre a jornada de Vânia, que faz uma revisão bastante contundente de sua vida ao perceber que passou tempo demais trabalhando para os outros, e o momento atual dos atores do grupo.

– Quisemos encontrar uma peça que retratasse de forma incisiva a passagem do tempo – explica Eduardo Moreira, ator do Galpão encarregado de interpretar Astrov, o médico por quem a triste Sonia, sobrinha de Vânia, é apaixonada. – Afinal, nós estamos entrando na faixa dos 50 anos.

Possivelmente, porém, os atores do Galpão não sentem tamanho grau de frustração quanto o protagonista de Tchekhov.

– Claro que a correspondência entre atores e personagens não é literal – esclarece Yara. – De qualquer modo, os personagens são dinâmicos. Buscam a felicidade, a alegria, o sucesso, a paz. Podem não conseguir. Mas Tchekhov fala num futuro melhor e coloca essa crença na boca dos jovens.

O contato da companhia com Tchekhov começou com a experiência de Moscou (2009), filme de Eduardo Coutinho no qual os atores ensaiaram durante três semanas As três irmãs, outra das grandes peças do  russo. Desde o início foi estabelecido que o  trabalho (que contou com a intermediação do diretor Enrique Diaz) seria interrompido.

– Talvez essa interrupção tenha gerado  certa melancolia – observa Eduardo. – Em todo caso, não ficamos frustrados.

Munidos da experiência adquirida no processo de Moscou, depararam-se com Espia uma mulher que se mata, apropriação de Daniel Veronese de Tio Vânia   encenada, no Brasil, por Roberto Bomtempo. 

– Fizemos uma mistura até chegarmos à nossa versão de Tio Vânia – avisa Eduardo Moreira, revelando a influência de filmes como Tio Vânia (1971), de Andrei Konchalovsky, e Tio Vanya em Nova York (1994), registro de Louis Malle de uma encenação intimista da peça. – Mas fomos fiéis a Tchekhov. 

Durante os ensaios, o grupo empreendeu uma desconstrução do texto.

– Concluí, contudo, que a dramaturgia que criamos estava aquém da de Tchekhov – explica Yara. – Mesmo assim, o que mostramos é a nossa leitura de Tio Vânia. Nós nos permitimos, inclusive, suprimir uma personagem, Marina, a antiga babá.

O repórter viajou a convite da organização do festival.