Marcus Quintella: O sofrimento do povo com o transporte público

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou recentemente uma pesquisa sobre mobilidade urbana, que analisa a maneira como a população brasileira percebe a eficácia e avalia a qualidade do transporte público nas cidades brasileiras, bem como tenta captar as dificuldades encontradas pelas pessoas na utilização dos meios de transporte. Aproveito esse gancho para colocar em discussão o tema do sofrimento humano e dos problemas ambientais decorrentes dos trânsitos caóticos e dos transportes públicos precários de nossas urbes, que tudo têm a ver com essa pesquisa do Ipea.

Na prática, esse sofrimento humano com o transporte público é um problema ambiental antrópico, visto que impede a mobilidade urbana das pessoas em igualdade de condições e prejudica as condições de saúde, lazer, trabalho e relações sociais das pessoas. O trânsito e os meios de transporte têm um papel fundamental no dia a dia da população, de forma direta ou indireta, uma vez que participam de praticamente todas as atividades cotidianas das pessoas. O transporte público faz parte desse contexto, e sua precariedade e escassez causa malefícios psicológicos, ambientais, físicos e sociais, ou seja, sofrimento humano.

Penso que existe uma tendência geral de menosprezo por esse tipo de sofrimento, especialmente pelos governantes, pois se trata de um sofrimento solitário, subjetivo, silencioso e de difícil mensuração. Na realidade, diante da falta de investimentos maciços e eficazes no setor, as pessoas reclamam e suplicam por melhores condições de transporte, mas acabam se acostumando e se conformando com o sofrimento diário, pois precisam trabalhar e viver. Assim, o sofrimento com o transporte público fica banalizado, e as pessoas acabam achando normal essa situação, e as soluções são eternamente postergadas.

Nas regiões metropolitanas do RJ e SP, onde milhões de viagens são realizadas diariamente, a maioria dos usuários de transporte público gasta entre duas e cinco horas por dia em seus deslocamentos casa-trabalho-casa. Normalmente, essas pessoas são transportadas em condições desconfortáveis, inseguras, insalubres e humilhantes, espremidas e sob temperaturas que podem chegar a mais de 40 graus, no verão. Em outras grandes cidades brasileiras, como Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre, Recife e Fortaleza, a situação da mobilidade urbana da população também é gravíssima.

Para agravar ainda mais a situação, o transporte público brasileiro está baseado no modo rodoviário, sendo, portanto, movido a gasolina e óleo diesel, com grandes emissões na atmosfera de gases tóxicos que contêm monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio, hidrocarbonetos, óxidos de enxofre e material particulado. Tais emissões causam danos ambientais, como o aumento do efeito estufa, e contribuem fortemente para o adoecimento e morte de milhares de brasileiros, todo ano, por causa da poluição atmosférica. O monóxido de carbono causa tonturas, vertigens, alterações no sistema nervoso central e pode levar ao óbito, em grande quantidade, em ambientes fechados. O dióxido de enxofre, presente na combustão do óleo diesel, provoca coriza e danos irreversíveis aos pulmões e também pode ser fatal, em alta dosagem. A fuligem pode atingir o pulmão das pessoas e agravar quadros alérgicos como asma e bronquite, irritação de nariz e garganta e facilitar a propagação de infecções gripais. Tudo isso é sofrimento humano.

Outro fator de sofrimento humano é a poluição sonora produzida pelo trânsito caótico, que provoca distúrbios do sono, estresse, perda da capacidade auditiva, dores de cabeça, náuseas, perda de concentração, taquicardias e alergias.

A solução é bastante simples, mas complexa, ao mesmo tempo, pois depende da percepção do sofrimento alheio pelos governantes. A reversão desse quadro é um desafio que precisa do envolvimento de toda a sociedade. Não podemos abrir mão do transporte público e precisamos buscar soluções que não prejudiquem o meio ambiente antrópico. Precisamos reverter essa situação de sofrimento humano com pesados investimentos em transporte público não poluente, confortável, rápido, seguro, barato, integrado e abrangente. Isso, sim, proporcionará felicidade, bem-estar e qualidade de vida para a população, ao menos no quesito transporte público.