Infância mutilada pela guerra

Conflitos no Iraque feriram milhares de civis e agora o governo não tem condições de atendê-los

Sadiq Ali, 15 anos, e Mohammed Ahmed, 14, são inseparáveis. Eles cresceram na mesma quadra, a oeste de Bagdá. Caminhavam juntos até a escola. Sonhavam se tornar astros do futebol quando um míssil caiu do céu e lançou fogo e estilhaços sobre os meninos. Sadiq perdeu a perna direita; Mohammed, a esquerda.

Quatro anos depois, a vida dos dois amigos é um exemplo das duradouras consequências dessa guerra sobre as crianças iraquianas. Milhares de anônimos foram feridos por mísseis e carros-bomba ou em batalhas nas ruas, e 800 mil pessoas perderam pelo menos um dos pais, de acordo com a ONU.

Com os serviços sociais ainda em farrapos, pais, funcionários públicos e ONGs dizem que o governo iraquiano tem sido incapaz de oferecer abrigo, acompanhamento psicológico e cuidados médicos a muitas dessas crianças.

Porém, esses jovens também são um exemplo de resistência. Mohammed e Sadiq nunca saíram do lado um do outro, chegando juntos a uma fase adulta incerta, usando muletas doadas e uma perna postiça amarela.

Em momentos descontraídos, eles lutam enquanto jogam futebol e discutem sobre qual deles se parece mais com o jogador português Cristiano Ronaldo. E brincam, dizendo que agora podem dividir o mesmo par de sapatos. 

– É melhor esquecer o que aconteceu – acredita Mohammed.

Um pequeno grupo sem fins lucrativos no bairro de Shoula, onde moram os garotos , doou próteses e muletas aos dois amigos, embora eles afirmem que os membros postiços, de encaixe ruim, esfolem a pele.Embora as cirurgias de traumas sejam gratuitas, quase todo o resto – de cadeira de rodas a antibióticos – deve ser comprado.

Para as famílias dos dois jovens, pagar por novas próteses é um problema, à medida que os garotos crescem e ficam grandes demais para as antigas. Em um país com taxa de desemprego de 20%, a situação dos meninos é realmente preocupante.

– Vejo o que aconteceu com rapazes com os mesmos problemas. Eles sentem tanta necessidade. Sempre que os vejo, penso no meu filho. Não posso fazer muito por ele, apenas garantir que  vá bem na escola – lamenta o pai de Mohammed. 

A dor da falta de assistência se estende a diversas famílias. Nour Hamed lembra que teve que comprar sangue AB positivo de um hemocentro local para o filho de 2 anos, cujo crânio teve um pedaço arrancado por uma explosão de  carro-bomba. Os médicos disseram a ela que o hospital não tinha sangue gratuito.

– Não apenas sangue, é preciso comprar até mesmo as seringas. O governo deveria ser responsável. Eles não estão levando a sério a missão de lidar com essas pessoas – critica Intisar Ali al-Jabour, chefe do Comitê para Famílias e Crianças do Parlamento. 

Hamed afirma que o buraco no crânio do filho ainda não foi tratado. O joelho de outro menino, atingido por uma bala, foi parcialmente reconstruído, porque os médicos disseram à família que não tinham as ferramentas e o dinheiro para lhe dar uma nova articulação. 

Já  Moussa Kadim, de  13 anos, que há dois foi atingido no braço direito por uma bala num fogo cruzado, ainda o apoia numa faixa, dormente e atrofiado, pois sua família não pôde pagar uma viagem ao exterior para a realização da cirurgia. O menino está aprendendo a comer e a escrever com a mão esquerda.

Após anos de violência, cerca de 3 mil crianças ficaram órfãs por causa da guerra e acabaram em orfanatos,  muitas vezes desgastados, administrados pelo governo ou grupos de ajuda humanitária. Outras passaram a viver com sua família estendida. Porém, milhares de jovens ainda perambulam pelas ruas de Bagdá e outras cidades, onde dormem em edifícios bombardeados, fuçam pilhas de lixo e vendem doce de gergelim e caixas de lenços a motoristas.

O governo estabeleceu comitês para indenizar crianças e adultos feridos, mas, segundo ativistas, pode levar de três a quatro anos para preencher os formulários e aparecer nas audiências para receber os cerca de US$ 2 mil.

De acordo com as Nações Unidas, 475 crianças foram feridas desde a primavera de 2009, quando se iniciou a contagem. O Ministério da Saúde do Iraque não quis divulgar seus números.