Ruben Maciel: A poesia do futebol e o futebol da nação

Futebol arte? O adjetivo encerra uma prática esportiva, desde sempre e naturalmente celebrada como a paixão nacional. O sonho da criança e o alimento diário do adulto. A brecha rara para o Eldorado e vácuo eterno para a realeza. Quem é brasileiro sabe: não esperamos outro Rei, marca distintiva da nação. Outro Pelé, nunca mais, e ponto final. Talvez outro fenômeno, diria um torcedor mais esperançoso e sonhador. “Aquele garoto vai dar o que falar”, é a frase solta e nostálgica, como disse Luís Fernando Veríssimo em seu mais recente livro, não menos apaixonado e crítico, sobre o futebol.  O fato é que, à parte toda sorte de contingências de infraestrutura de clubes, má administração financeira (só os passivos fiscais – dívidas com INSS, IR e tributos diversos, dos quatro maiores clubes do Rio de Janeiro, em 2008 – somavam mais de 540 milhões de reais) e demasiada demagogia de interesses privados (TV, jornais, diretorias, cartolas, empresários, amadores, donos de bares de esquina, iranianos com nomes engraçados que nos remetem a marcas de carro), continuamos a produzir para toda temporada uma nova e rica safra de jogadores que, após uma ou duas paradinhas ou um drible de efeito, serão não apenas o futuro melhor do mundo mas o aspirante a salvador da pátria. Agora, em vésperas de Copa no Brasil (2014), tal máxima se exaspera, e nós esperamos, ansiosamente, a ascensão desses personagens. 

O Imperador de ontem (Adriano) se torna o(s) príncipe(s) de hoje (Neymar, Lucas, Ganso, Philipe Coutinho) e reaparece, encarnado, nos deuses de amanhã: dos sub-17 aos fraldinhas, dos moleques descalços das peladas diárias às mil e uma peneiras pelos campinhos tupiniquins.  Ídolos (inter)nacionais. Já nascem quase gringos para exportação. Matéria-prima da casa. Podem levar! Aberta a sessão: quem dá mais? O inglês? O espanhol? Ou, você, Mohammed? E a aventura no Velho Continente passou de tão absurda que os filhos do Mazinho (lembra? Campeão com a Seleção Brasileira em 1994) não jogaram (nem jogarão, suspeito) por divisões de base locais: nem bem completaram a maioridade, e já estão, previamente, esposados e declarados pelo orgulhoso genitor como os futuros astros catalães (Barcelona) que defenderão o brasão espanhol. 

Bem, então, não era hipérbole de narrador esportivo exacerbado de canal aberto ou mais uma das tantas fofocas divulgadas em sites que fazem da bola um globo esporte nacional: “Jogador disse que diretoria era medíocre” (não deve ter mentido); “Estrela flagrada em boate com loira”; “Atacante chegou 28 segundos atrasado no treino”. Duas páginas do periódico local: tiros, corrupção, flagelo social. Caderno de esporte: 3 a 0 para o Flamengo, amém! Voltemos à não hipérbole. E o que louvamos na arte de jogar futebol conatural ao brasileiro é que, inexplicavelmente, veio do sangue, do DNA (ginga dos africanos, ou peripécia indígena, ou astúcia imigrante europeia, para ficarmos nos estereótipos do senso comum). Os clubes estrangeiros deveriam, então, exportar, antecipadamente, as mães grávidas dos morros cariocas ou de recônditos locais no Nordeste brasileiro. Mas talvez não obtivessem o êxito esperado. Na Europa os recém-nascidos com sangue divino de craques frequentariam as boas escolas, não teriam tempo livre para jogar nas ruas, onde, nas palavras proferidas pelo atacante francês Henry na Copa de 2006, aperfeiçoavam o seu drible e sua malandragem, e, daí, serem melhores que os franceses. Não custa lembrar que, na ocasião, nosso quarteto fantástico (Ronaldo, Adriano, Kaká e Gaúcho) sucumbiu diante do surfista prateado francês (Zidane).

Propagandas, patrocínios fabulosos e desenvolvimento tecnológico global. Fatores que segundo hodierna reportagem do New York Times fabricam os atuais superatletas, geneticamente perfeitos, cujos salários astronômicos consomem fatia considerável dos mercados supranacionais. Há 40 anos, o maior de todos, Pelé, recebeu 1 milhão de reais do Santos. Neymar, o descendente direto desta historinha genética sucessiva e ininterrupta, no auge de sua trajetória de 18 anos, recebe essa ninharia (para os padrões do endividado futebol brasileiro) quase que bimestralmente. 

Ruben Maciel  é historiador por gosto e palmeirense por profissão.