Paranoia rasteira

Risco de novos acidentes fazem cariocas driblarem as tampas de bueiros

 

Se você  passar por Copacabana e ver pessoas andando em ziguezague, não vá achar que sofrem do mal de  Melvin Udall, personagem do filme Melhor é Impossível que valeu a  Jack Nicholson um Oscar de melhor ator, e que, devido a um transtorno obsessivo compulsivo, não  pisava nas linhas da calçada. No caso do Rio, trata-se de puro medo de estar sobre um dos  130 bueiros-bomba-relógio, que, sem manutenção,  podem explodir a qualquer momento, como aconteceu na noite da última sexta-feira, quando uma dessas tampas foi pelos ares, deixando cinco feridos.

– Vamos blindar a janela para proteger nossos filhos – diz Fernando Alves, cujo apartamento fica em , em frente ao bueiro que explodiu no dia 1º.

Em 2011, 12 bueiros apresentaram problemas na cidade.

Depois que a explosão de uma galeria subterrânea da Light feriu uma atendente do ponto de táxi onde trabalha, na esquina das Avenidas Princesa Isabel e Nossa Senhora de Copacabana, Sérgio Vasconcelos, há seis anos na praça, adotou uma tática de condução “precavida e defensiva”, onde as tampas de bueiros e galerias “são como obstáculos”.

– Fujo dos bueiros como o diabo da cruz. Se tiver que frear bruscamente, eu o faço. Ainda mais se estiver saindo aquela fumacinha. Morro de medo de levantar voo ou ser esmagado pela tampa.

Já o arquiteto Jean Maurice Boechat, 29 anos, comparou as ruas de Copacabana a uma zona de guerra.

– Parece um campo minado, é muito perigoso. Na Avenida Prado Júnior, sai fumaça dos bueiros 24 horas por dia.

Segurança de uma farmácia na frente da galeria que explodiu na última sexta-feira, Sebastião dos Santos prometeu, em tom irônico, exagerar nos cuidados antes de entregar-se ao tabagismo.

– Quando fumar meu cigarrinho na calçada, vou pegar o capacete dos rapazes da entrega. Não dá pra saber quando explodirá o próximo bueiro. Melhor prevenir que remediar, já dizia o ditado.

Morador da Ladeira dos Tabajaras, Otoniel Amaro de Souza, de 17 anos, que vende coco na esquina da Avenida Nossa Senhora de Copacabana com Rua Bolívar, local da explosão da última sexta, afirmou ficar assustado quando vê algum tipo de vapor sair das galerias subterrâneas.

– Não posso sair desse ponto, porque vendo muito aqui. Coloco o carrinho em cima da tampa do bueiro, encho de coco e gelo. Se explodir, acho que o impacto será menor em mim. – disse ele. – De verdade mesmo, pelo que vi na sexta-feira, se explode isso daqui não tem para onde correr.

Prefeitura quer que Light aponte o perigo

Das 4 mil câmaras transformadoras, que englobam salas subterrâneas com transformadores espalhadas da Zona Sul ao Centro, 130 ainda precisam ter os equipamentos trocados e correm risco de explodir, admitiu, no sábado, o presidente da Light. Ao saber da declaração, o prefeito Eduardo Paes exigiu que a empresa sinalize e conserte os pontos de risco. 

O secretário municipal de Conservação e Serviços Públicos, Carlos Roberto Osório, disse ontem que a prefeitura não descarta entrar na Justiça contra a Agência Nacional de Energia Elétrica e a Light. 

Ontem, porém, por nota, a Light afirmou que trabalha nos 130 bueiros não modernizados e negou o risco de explosões.