Wilson Figueiredo: Coisas da Política

A história como ponto de partida e chegada

No horizonte da campanha eleitoral encerrada, não chegaram a merecer prioridade as considerações  encaminhadas na oportunidade e que  continuam  expostas aos efeitos da terceira derrota consecutiva do PSDB. Ainda não se sabe o que seja melhor fazer ou deixar de fazer à esquerda, mediante leitura dos fatos com os olhos da democracia e interpretação com a cabeça da direita.

Depois de experimentar amplo e  promissor efeito no final do século 20, a social-democracia, aqui e alhures, vem ficando para trás e já parece uma das relíquias daquela arrancada rumo à democracia que arrematou o século 20 no Brasil. Como proposta, a social-democracia representou um  corte na sequência de desvios e equívocos que inviabilizaram antes o foco de esquerda na vida brasileira.

O saldo histórico atual, no entanto, vem sendo preterido pela ilusão de que insucessos eleitorais e equívocos políticos devem ser tratados como se a história fosse realmente assunto exclusivo de vencedores. No caso específico, problema de ex-vencedor, que até hoje nem desconfia da razão pela qual as duas vitórias presidenciais da social-democracia no Brasil não foram o ponto de partida mas de chegada.

Mérito pouco reconhecido da social-democracia, em sua passagem pelo Brasil, foi a naturalidade com que passou a ser tratada a presença da esquerda. Ficou por não dito tudo que se dizia a respeito. O tema do compromisso democrático nunca foi sequer levado a debate. A social-democracia,  no século 19, foi portadora da proposta de associar, num só compromisso político, a causa da igualdade social possível e os meios democráticos como compromisso permanente. 

Depois de três insucessos, não se deve ao acaso a exigência de Lula para aceitar a quarta candidatura, por falta de alternativa. Luiz Inácio Lula da Silva deu dois passos atrás para ganhar impulso e tentar o salto de bailarino. Não deixou de ser a tradicional troca de seis por meia dúzia: se não tem outro Lula, vai de Lula mesmo. O PT foi de Lula e acabou tentado pela vontade de continuar trilhando instintivamente a tortuosa via dos sofismas. Trata-se do mesmo princípio de que se  valeu a social-democracia para adquirir  viabilidade política, qual seja, deixar  de lado a ilusão revolucionária e admitir, não como tática ou etapa transitória mas como compromisso, o modelo democrático de acertar as contas periodicamente nas urnas. Pelo menos, até onde o raciocínio alcança.

Como, pelo número de derrotas, é a social-democracia que está na berlinda, quem está devendo é o PSDB. A começar pela fuga ostensiva à discussão das causas prováveis de derrotas à espera de melhor avaliação. Não basta reconhecer o insucesso sem remontar às causas. Qual a razão pela qual a bancada social-democrata na Câmara e  no Senado aceitou ser carimbada  de neoliberal, sem tugir nem mugir? 

Pela mão canhota do presidente Lula, o PT se agarrou à  doutrina ambidestra – comum ao PSDB e ao PT – para não deixar escapar a estabilidade econômica que nem diz mais o próprio nome. A economia se deu bem com a maneira social-democrata de cuidar do assunto. PT e PSDB, quando no poder,  não querem outra. Lula salvou dois mandatos com a mesma dosagem social-democrata da economia. Fez melhor: repetiu a fórmula do velho sucesso radiofônico do anúncio em que uma discreta maneira feminina de tossir, quase como pedido de desculpa, contrastava com o espalhafato da versão masculina, e o locutor dava seu recado comercial. Era outro o Brasil? Nem tanto. Faltava a televisão. 

Não é uma alegoria, mas um comercial à disposição da TV. As causas e as consequências continuam, uma e outras para lados diferentes, enquanto o PT se amolda às circunstâncias e o PSDB espera – não se sabe bem o quê nem quem. Mas o momento a cada dia fica mais longe do efeito a ser conseguido.