Luiz Orlando Carneiro: O prestígio de Hélio Alves

“Dado o seu nível internacional em matéria de habilidade técnica, Hélio Alves devia ser famoso, mas é difícil enquadrá-lo em qualquer categoria conhecida (…). Ele produz música sensual e ritmicamente intrincada com a precisão e a sofisticação harmônica de um músico clássico e a energia afiada de um instrumentista de jazz”.

“Lampejos de fogos de artifício estão, aqui e ali, em Música. Mas, virtualmente, não há excessos, nenhuma exibição gratuita ou deslumbrada. Uma luz mais reveladora ilumina este álbum com a sutileza, a musicalidade e a extraordinária facilidade de improvisar que distinguem Hélio Alves”.

O primeiro parágrafo foi retirado da review do CD Música (JLP), com o trio do pianista paulista Hélio Alves, assinada por Thomas Conrad, e publicada na edição deste mês da revista Jazz Times. O segundo é da resenha do mesmo disco, de Robert L. Doerschuk, constante do número de março da Downbeat. Ambos são demonstrações do respeito e da admiração que a crítica especializada lá de fora tem por esse pianista paulista, 46 anos, que foi para os Estados Unidos no fim da década de 80, e formou-se no célebre Berklee College of Music (Boston), onde estudou com o pianista-compositor Charles Banacos (1946-2009). 

Música – o quinto CD de Alves como líder – é, aliás, dedicado ao guru Banacos, cujo primeiro nome intitula uma das duas faixas de autoria do pianista, Tribute to Charlie (5m37). A outra é Sombra (6m30), também em forma de balada, mas com o tempo aos poucos acelerado até o retorno à melodia plácida do tema. As demais peças interpretadas pelo trio integrado pelos formidáveis Antonio Sánchez (bateria) e Rueben Rogers (baixo) são Kathy (7m20), de Moacir Santos, com gostoso balanço em 5/4 (aquele tempo de Take five); Black Nile (5m56), de Wayne Shorter, o ponto culminante da seleção, em ritmo vertiginoso – mas sem derrapagem ou farolagem – com solo de Rogers, mais troca de compassos entre o líder e Sánchez; e Música das nuvens e do chão (7m40), de Hermeto Pascoal. 

Outros dois grandes músicos brasileiros sediados em Nova York contribuem para o sucesso do álbum: Claudio Roditi e Romero Lubambo. O primeiro toca trompete para encorpar o som do quarteto numa irresistível versão samba jazz de Gafieira (4m22), de Dom Salvador, e sola, no flugelhorn, em Adeus Alf (6m54), tema de sua pena. O guitarrista – mais conhecido por ser um terço do Trio da Paz (Duduka Da Fonseca e Nilson Matta são os dois terços) – empresta sua classe a Flor das estradas (6m50), de Dori Caymmi, e Chan’s song (7m), de Herbie Hancock/Stevie Wonder.

Hélio Alves incluiu o seu nome entre os pianistas de jazz do primeiro time de Nova York depois de uma série de três ótimos CDs gravados para a etiqueta Reservoir: Trios (1998), na companhia dos baixistas John Patitucci ou Nilson Matta e dos bateristas Al Foster, Duduka ou Paulo Braga; Portrait in black and white (2004), com Santi Debriano (baixo) e Matt Wilson (bateria); e It’s clear (2009), em quarteto integrado por Lubambo, Scott Colley (baixo) e Ernesto Simpson (bateria).

Na agenda do pianista, de 26 deste mês a 1º de maio, no Dizzy's Club – no prédio do Lincoln Center, ao lado do Central Park – compromisso como sideman de Duduka da Fonseca no programa Samba Jazz and the music of Jobim, para o qual estão também convocados Claudio Roditi, o baixista George Mraz, a cantora Maúcha Adnet e Toninho Horta.