Heloisa Tolipan

Na companhia da solidão

Solidão? Que nada...  Será que é mesmo tão impossível ser feliz sozinho? Bom, até poderíamos concordar com essa premissa se não tivéssemos, anteontem, dado um pulo no Teatro SESI, para a pré-estreia da peça 45 minutos. Não, não estávamos sozinhos. Era só olhar ao redor  que víamos muitos amigos, famosos e anônimos, parentes e conhecidos de todos. Porém, no palco, uma única figura tão conhecida por nós. Era Caco Ciocler que, em seu monólogo de tempo homônimo ao título, foi bem feliz em termos de interpretação e paixão pela arte que sempre nos mostra...

E aí, Caco, como foi estar sozinho no palco por este tempo todo? Foi muito difícil preencher o vazio em cena?

– Não tem como não esconder a tensão. Um monólogo é de muita responsabilidade para o ator. Não há desculpas quanto a erros, está tudo na mão de quem faz. Mas,  acabo usando  isso a meu favor, pois tento desvendar na plateia  o conceito sobre entretenimento, o que o público busca em uma peça de teatro, o que deseja assistir. Além da liberdade maior para o improviso, o que aproxima muito do público da história. 

Você defende que teatro tem sido visto, apenas, como entretenimento. A que você atribui esse descaso com o teor artístico dos palcos? 

– Acho que tem a ver com o momento da humanidade, que está mais ligado a uma questão mercadológica, e a arte não ficou de fora desse viés. Existe uma venda da ideia de felicidade constante e as pessoas, munidas desse ponto de vista, correm desenfreadamente na busca da alegria. Não há espaço para tristeza em qualquer hipótese. Mas, por outro lado, essa permanência não faz parte da condição humana real e o emburrecimento começa a ser uma alternativa para lidar com a angustia  ocasionada pela frustração de não conseguir ser feliz em todos os momentos da vida. Então, se pensarmos e constatarmos a incapacidade, enlouquecemos. O teatro, normalmente, se propõe a isso. Deve-se lidar com coisas profundas da existência , só que, muitas vezes, acaba por vender ideias que são contrárias ao que se propõe para se adequaram as pessoas que não querem mais pensar. 

Aliás, como foi o seu primeiro contato com o teatro? Já pensou em seguir outra carreira que não tivesse relação com arte? 

– Desde os 10 anos já fazia teatro amador e  lidava de forma séria e com muito amor. Então, sempre ocupou um espaço muito grande na minha vida. Nos palcos, eu sempre encontrei muita voz e não posso negar que ajudou muito em minha formação. Acabava falando por meio de personagem, sem me expor, sobre coisas íntimas e, para um adolescente, isso é muito importante. Mas, nunca pensei que fosse viver disso. Cheguei a cursar engenharia química por quatro anos,  mas chegou a um grau de comprometimento com minha arte que não tive como voltar atrás.

Você sempre fez papéis impactantes tanto na TV, quanto nos palcos ou nas telonas. Para você, qual é a principal diferença entre essas linguagens? 

– O teatro tem mais a ver com o processo de criação de um personagem e permite maior possibilidade de testar o novo. Ele está acontecendo ali, naquele momento , com aquele público e todo dia reacontece, com um mesmo texto, mas de forma diferente e isso é muito próprio. Já o cinema tem uma lente enorme em cima de você, um grande olho, que capta a alma do ator. Então, ele tem de se jogar no personagem, pois isso é visto e mostrado para o grande público. E a TV é um exercício de rapidez, tudo tem de ser resolvido de forma ágil, sem um longo processo. A naturalidade funciona bem nesse veículo, mas é difícil se sair muito bem em um plano geral, ainda que seja instigante. Admiro muito quem consegue dar um show em um trabalho televisivo. É um processo de extrema intuição.

Falando nisso, algum novo trabalho já está em seus planos para este ano?

– No cinema, tenho quatro filmes para serem  lançados e, provavelmente, devo filmar mais um  em outubro. Na TV, nada assinado ainda, mas tenho sondagens. Em breve, boas novidades virão por aí.

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O som de um clique sobre as vozes de Nelson Cavaquinho  

Mais do que as surpresas que o tempo cada vez mais veloz nos prega, este ano nos demos conta que já faz 100 anos que Nelson Cavaquinho (1911-1986) pisou, pela primeira vez, em folhas secas caídas de uma mangueira natural. Mas, mesmo nos deixando na saudade da ausência, nunca tivemos dúvidas de que o sol haveria de brilhar mais uma vez e a luz chegaria nos corações, como ele bem dizia em versos. Mais uma vez, só? Não para o poeta da verde-e-rosa que, ao longo desses tantos carnavais, já reluziu em muitos intérpretes da nossa MPB. “O que mais me chamou a atenção nas vozes que interpretam Nelson é que não são, apenas, pessoas que cantam samba e nem só da velha guarda. Existe muita gente do pop também. A música dele é tão grandiosa que atrai as pessoas de todas as idades e todas as categorias”, nos revelou o fotógrafo Ricardo Poock, que reuniu 35 fotos de seu acervo pessoal, como você bem pode ver na página,  na exposição Vozes de Nelson Cavaquinho, no Instituto Cravo Albin. “No fim do ano passado, o Jorge me apresentou ao Ricardo Cravo Albin e pude mostrar meu acervo de foto. Depois disso, Ricardo convidou para ilustrar o dicionário dele, fez de meu nome um verbete e resolvemos, então,  que iríamos fazer uma exposição para comemorar a parceria. Nada mais justo do que aproveitar o centenário de Nelson, não acha?” Claro, Poock, mas uma pergunta ainda ficou no ar: Quem seria o tal Jorge responsável pela apresentação dos Ricardos? Sim, caros, é o querido poeta que tanto ilustra as páginas de nossa coluna, Jorge Salomão, assumiu a curadoria do projeto. “Curadoria, antes de tudo é semear idéias, depois filtrá-las e incrementar o pensamento mais bonito para o trabalho. Não foi a primeira que faço esse tipo de trabalho, mas a mais intensa. Adoro as fotos do Ricardo e do Nelson, nem se fala. Está tudo lindo”. Quanto a isso, não temos a menor dúvida, Jorge! A exposição entra em cartaz hoje e ficará até o dia 2 de julho. Sem desculpas, nos encontramos lá, né?

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Um Cabaret de paixões 

Caras pintadas, intenso movimento corporal, expressões fortes, o que pensar? É Carnaval? Uma encenação do filme laranja mecânica? Protesto político? Não, não, trata-se de cultura glam, baby! “Na época em que começamos a fazer música, as pessoas estavam muito ligadas no filme Velvet Goldmine e em revivals dos anos 70. Nossa galera sempre consumiu muita cultura pop, o que faltava era a coragem para usar maquiagem. Mas isso não foi difícil para mim, que tenho cinco anos de balé clássico”, nos contou Márvio dos Anjos, o vocalista da banda alternativa Cabaret, muito bem representada também pelo baixista Marcelo Caldas, o guitarrista Felipe Aranha e Marcos Hermes, na batera. Mas, quem vê tamanha personalidade e performance corajosa no palco, não há como não associar ao sangue latino de Ney Matogrosso, não concorda? Bom, pelo visto, não fomos tão inéditos na rápida associação, já que,  quando a canção dentro de você ainda era artigo de gaveta de Márvio, o compositor já pensava em um dueto com Ney. “Eu fui ao camarim em um show dele, acho que em 2007, me apresentei como músico e disse que queria mostrar nosso trabalho. Depois, cheguei a entrevistá-lo para a revista Rolling Stone, o que estreitou a relação, e ficou sempre no ar a possibilidade de colaboração. Quando ele pôde acesso a essa canção, gostou muito e foi um cavalheiro durante o dia que levamos para gravar”. Casamento feito e muitas outras formas de paixão,nasce o segundo CD da banda que levará o nome de A paixão segundo Cabaret, como bem nos disse o vocalista: “É um CD menos glam, mais variado nos estilos de rock, para poder contar uma história de um homem que nunca soube se apegar, no momento em que ele encontra a mulher inescapável”. Olha, como sabemos que o disco só deve ser lançado no mês que vem e não queremos que o bebê nasça com cara de glam, é só dá um clique no vídeo aqui de cima e ver o que lhe aguarda.