Cristo é nossa luz

Em nosso itinerário batismal neste abençoado tempo quaresmal, chegamos ao momento em que a Igreja nos anuncia que viver a vida cristã é viver uma vida iluminada.

Podemos não enxergar por não haver luz. É muito comum essa descoberta. Porém, podemos também não ver mesmo com a luz ao nosso redor. Aí a questão é uma questão de deficiência nossa. Como Cristo é a luz do mundo e ilumina todos os que nascem neste mundo, no tempo da Quaresma somos chamados a que, vivendo a nossa vida batismal, tenhamos a cura de nossa cegueira. Batismo é iluminação!

É a essa dimensão que somos conduzidos, ontem, quarto domingo da Quaresma. Nós continuamos a ler o Evangelho de João. O nono capítulo – inteiramente dedicado à narrativa da cura de um cego de nascença: “Jesus ia passando, viu um homem cego de nascença”. O homem estava sentado durante anos naquele local para mendigar; muitos o viram, e somente alguns uma vez ou outra, e esses diminuem os passos para dar-lhe uma esmola. Jesus para, juntamente com os discípulos, e olha para ele, mas o seu olhar  é um olhar diferente. Para os discípulos é um caso sobre o qual empreendem uma discussão: “Mestre, quem pecou, esse ou seus pais, para que nascesse cego?”. 

De acordo com as ideias religiosas daquele tempo, a deficiência era resultado do pecado, como se fosse um castigo. Essa concepção atravessou os séculos, e ainda hoje faz parte da mentalidade de muitas pessoas. Jesus repudiou essa visão: “Nem ele pecou nem seus pais”. É uma resposta breve, mas clara. Também não é indiferente às tragédias, deficiências e às enfermidades que se abatem sobre eles. Ele vem para curar e salvar. E a história do cego é uma manifestação disso. Enquanto os discípulos discutem sobre se o homem é culpado ou não, Jesus ama-o, se aproxima dele, toca-o com ternura e cura-o. Naquela mão que toca o cego, cumpre-se o mistério do amor de Deus. Infelizmente, os homens geralmente são tão afastados entre si, até ao ponto de serem capazes de não falar ou não amar. Mas, quando ele estende a mão e toca o homem, aqui intuímos o mistério do amor de Deus. Jesus disse àquele cego: “Vai lavar-te na piscina de Siloé”. O cego foi, “lavou-se e voltou vendo”. A cura não veio através de fórmulas mágicas ou esotéricas; é realizada de uma forma simples: obedecendo às palavras de Jesus.

O papa Bento XVI, em sua mensagem quaresmal, nos ensina: “O domingo do cego de nascença apresenta Cristo como luz do mundo. O Evangelho interpela cada um de nós: ‘Tu crês no Filho do Homem?’. ‘Creio, Senhor’ (Jo 9, 35.38), afirma com alegria o cego de nascença, fazendo-se voz de todos os crentes. O milagre da cura é o sinal de que Cristo, juntamente com a vista, quer abrir o nosso olhar interior para que a nossa fé se torne cada vez mais profunda e possamos reconhecer nele o nosso único Salvador. Ele ilumina todas as obscuridades da vida e leva o homem a viver como filho da luz”.

A catequese batismal é muito clara: para voltarmos a enxergar é necessário lavar-se nas águas do batismo, tirando a lama de nossos olhos e, consequentemente, aceitar Cristo como Messias e Senhor. Aí enxergamos perfeitamente o sentido de nossa vida e o chamado do Senhor para a vida cristã. Nós seremos curados da cegueira e poderemos perceber quem está ao nosso redor; e, vivendo o nosso batismo, todos seremos capazes de estender, ao chegar a nossa vez, as mãos para tocar com afeto os que estão sozinhos, que estão necessitando, quem pede a amizade. 

Tocado pelo Senhor, o cego de nascença praticamente renasceu; ele não somente enxergava aquilo que antes não via, mas também acreditou em Jesus como Messias, embora ainda não o conhecesse bem. Teria que ir dando passos pouco a pouco, aprofundando sua fé. Ele tornou-se um novo homem, a ponto de levantar dúvidas entre aqueles que o conheciam bem. Alguns até pensavam que não era a mesma pessoa que antes estava pedindo esmolas. Outros, como os fariseus, chegam a acusá-lo e até expulsá-lo. Enquanto os outros o expulsam, Jesus o procura e o encontra, e fala com ele novamente. Neste novo encontro, Jesus agora abre os olhos do coração. É o milagre de que nós também temos necessidade para alargar o nosso coração, para abraçar, também nós, como o cego, o Senhor Jesus e dizer-lhe: “Senhor, eu creio”.