Antônio Campos: B Ideias & Livros

Os criadores são criaturas coletivas

Certa vez, afirmou o escritor alemão (Johann Wolfgang von) Goethe:

– Minhas obras foram nutridas por incontáveis indivíduos, inocentes e sábios, brilhantes e estúpidos. Frequentemente, colhi o que os outros plantaram. Meu trabalho é obra de um ser coletivo, que carrega o nome de Goethe.

A discussão aflora em torno da questão dos direitos autorais direcionados aos artistas do país, inclusive no momento em que se discute a reforma da Lei do Direito Autoral, que deve se estender ao mundo digital. Afinal, quanto custa e a quem se dirige, por exemplo, o trabalho intelectual de um escritor?

Em contraposição, discute-se a importância da gratuidade da arte, a partir da possibilidade de torná-la acessível a todos e, assim, propagar a cultura brasileira. Como disse o ensaísta e músico José Miguel Wisnik, “a arte só tem graça se for de graça”:

– Se tiver sido feita graças à força da vida que é investida nela mesma, e se destinar a gerar, multiplicar e diversificar esse impulso que a gerou, não esperando nada mais do que isso.

Wisnik destacou, no entanto, a necessidade de manter o direito autoral como um estímulo para o surgimento e a manutenção de artistas, mas sem esquecer do sentido real da arte.

– Podemos pagar para tê-la (a arte), mas não podemos tê-la se não nos entregarmos a ela. Os direitos autorais são um progresso moderno, que garante a existência de criadores independentes. Não pode haver retrocesso nisso. Fora isso, a vocação da arte é ser de todo mundo e para todo mundo – disse o músico.

A coletividade da arte produzida pelos artistas nacionais não deve se limitar, portanto, às cifras, levando em consideração, também, que  trata-se de obras artísticas,  o que traz à tona a problemática da precificação de uma arte. Ainda nas palavras de José Miguel Wisnik, “quem calcula o preço da Odisseia, o custo humano da sua confecção, o seu impacto através dos milênios? O mercado não teria dinheiro capaz de pagá-lo”. 

Pensar em novas maneiras de difundir o trabalho na indústria cultural e entre os consumidores da arte é uma saída estratégica encontrada pelos artistas. Na internet, prepondera a lógica de ganhar centavos muitas vezes, em vez de milhões de uma vez. Uma das opções encontradas é entrar na era virtual e viabilizar o acesso ao conteúdo artístico através da internet, o que pode findar o conflito entre o que é propriedade intelectual e o que é propriedade comum. É de impressionar o recente projeto Google Art Project, que digitalizou as obras de mais de 20 grandes museus no mundo, disponibilizando imagens de quadros em alta resolução pela internet. 

O pesquisador da Universidade de Harvard Lewis Hyde, em seu livro A dádiva, defende que “falamos de ‘propriedade intelectual’ só em termos de um direito de excluir, mas também poderíamos pensá-la em termos de um direito de doar”.

Hyde afirmou, ainda, que “a dádiva (o dom) precisa ser mantida em movimento. ‘Tornar público ou morrer’ é uma exigência interna do espírito criador, exigência que nos é feita pelo próprio dom, não por algum agente externo a nós”. É preciso buscar o equilíbrio entre preservar os direitos autorais e possibilitar um maior acesso do público às artes.