Anna Ramalho: É triste ser celebridade

Tinha 15 anos, usava o primeiro vestido oficial  de baile, saltos altíssimos e o coque de cachos que era da hora naquele tempo, quando achei por bem (e por influência do Cacau, o amigo-irmão tão amado e que tão cedo partiu!) enfiar no dedo o chuveiro de brilhantes da mamãe. Chuveiro de brilhantes, tal como o coque de cachos, era modismo daqueles anos dourados. Eu ganhara um pelos 15 anos – evidentemente não tão portentoso quanto o da mamãe – mas o Cacau, que já gostava de um exagero, achou que era pouco. Fui na caixa de joias e troquei o meu pelo dela. Passei pela sala, dei tchau, todo mundo disse as platitudes de sempre e ninguém percebeu o anel.

Saímos todos em black-tie, aquela turma de adolescentes, para um baile de formatura no Clube Monte Líbano – programa de todos os sábados de todos os  dezembros daqueles anos dourados. “Parece bolero, te quero, te quero...” 

Cheguei em casa às tantas, morta de cansaço, mas mamãe me esperava, como sempre fazia. Como sempre fazia também, comecei a contar o programa, com todos os detalhes, e gesticulando tanto, que o brilho do anel chamou a atenção dela. Recebi, então, a lição que guardei para sempre: até para joias, roupas e acessórios, tudo tem seu tempo certo – e aquele anel não estava em acordo com os meus 15 anos.  Ouvi essa, como ouvi desde a infância,  que a verdadeira elegância nasce da simplicidade. Menos é mais. E o assunto, aqui, não dizia respeito apenas a modelitos e sapatitos. Era filosofia de vida na casa da minha mãe. Continua sendo na minha. E na do meu filho. Zero de deslumbramento.

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Por que estou falando tudo isso? Porque ando chocada com o grau de exposição a que as pessoas vêm se submetendo.  Fiquei sinceramente deprimida – depois de ter assimilado a primeira reação: choque, espanto, horror – com essa pobre moça que anunciou seu suicídio primeiro em carta para a Caras, em seguida, via Twitter. O que é isso, Senhor?!

Andy Warhol falou em 15 minutos de fama e já achando um exagero, mas nem o profeta Isaías conseguiria prever que a sociedade como vem se apresentando fosse chegar a este esgarçamento moral, a este tipo de desespero que extrapola as patologias, que inverte os valores. Tudo em muito menos do que 15 minutos. É mais do que suficiente que caiba em 140 caracteres e chegue à capa da Caras ou da Quem ou da Hola.  Fico imaginando quem recebeu o aviso do suicídio da moça. O que fez? O que se faz numa hora dessas? Alguém sabe onde encontrar o remetente para além de seu endereço @fulana de tal? Deve ter sido uma experiência horripilante ler os 140 caracteres enquanto Cibele se jogava no vazio. Se eu tivesse recebido, talvez achasse que era uma brincadeira. E quando se vê que não era piada? Como fica a cabeça de quem recebeu o tweet e logo depois a confirmação do suicídio?

Não consigo imaginar. Só posso lamentar e mais uma vez concluir que as pessoas estão ficando muito loucas. Perigosamente loucas.

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Noves fora quem usa as redes sociais como ferramenta de trabalho e até quem aprofunde um ou outro conhecimento no cyberespaço, acho meio doentio alguém passar um dia inteiro narrando tudo o que lhe acontece. Isso não é normal, até porque quem passa o dia trocando informações e fotos  pra lá e pra cá é porque definitivamente não tem o que fazer. Cabeça vazia, oficina do diabo, já diria minha mãe.

Não consigo entender a morte anunciada desta bela moça. Como não tenho intimidade com o assunto, sei que um noivo dela suicidou-se meses antes, aos 27 anos,  e ela não agüentou a barra. Quanta fragilidade! Que pena que me dá. Cibele deixou filhos, deve ter deixado pais, irmãos, tios, primos ... Como estão vivendo essas pessoas depois da tragédia?

Porque aqui fora, no circo midiático, a vida da qual ela abdicou  e sua morte anunciada vão render muita grana com este gosto pelo mórbido que o mundo tem – porque isso, justiça se faça,  não é só coisa de brasileiro, não. O ex-marido proibiu que seu nome fosse citado numa tentativa de se proteger e proteger a filha, empastelou a revista  que foi obrigada a usar tarjas para cobrir qualquer menção a ele, mas mesmo assim todo mundo já  corre  para ler a carta-testamento que a modelo deixou para a Caras. Quanto mais penso neste assunto, mais deprimida fico.

E concluo:  foi um preço muito alto pra virar celebridade.