A vida depois de Chico Xavier

Produtores de rendosos títulos inspirados na obra do médium mineiro voltam-se agora para a biografia do francês Allan Kardec (1804-1869), considerado o pioneiro do espiritismo moderno

Os créditos finais de As mães de Chico Xavier, em cartaz no Rio,  avisam: “Este filme encerra as comemorações do centenário de nascimento de Chico Xavier (1910-2002)”.    A onda do cinema espírita, que alavancou a bilheteria nacional nos últimos dois anos, no entanto, não vai perder força com o fim da celebração em torno do médium mineiro e de sua obra, que já gerou sucessos como Nosso lar, de Wagner de Assis, assistido por mais de 4 milhões de brasileiros. 

– Temos outros planos nesta área, mas nossa prioridade neste momento é fazer um filme sobre o francês  Allan Kardec, o grande codificador do espiritismo do século 19, de onde tanto Bezerra de Menezes quanto Chico Xavier beberam. É um projeto ambicioso, que envolve locações na França, elenco internacional e um roteiro falado em inglês ou francês – adianta Luís Eduardo Girão, da ONG Estação da Luz, coprodutora de As mães de Chico Xavier e responsável pela consultoria ou coprodução de títulos como Bezerra de Menezes – O diário de um espírito (2008), visto por mais de meio milhão de espectadores, e Chico Xavier, de Daniel Filho, conferido por cerca de 3,4 milhões.

Escritor, educador e tradutor nascido em Lyon, Hippolyte Léon Denizard Rivail adotou o pseudônimo famoso depois de 1855, quando passou a estudar o fenômeno das escritas mediúnicas e, posteriormente, a praticá-las. Um dos espíritos que recebia se dizia chamar Allan Kardec, e  passou a orientar seus trabalhos nesse campo. A entidade revelou-lhe que já o conhecia de outras encarnações. Rivail adota o nome, e com ele passa assinar as obras que condensam as leis da doutrina espírita.

Um desses trabalhos, O livro dos espíritos, aliás, inspirou O filme dos espíritos, de André Marouço e Michel Dubret, que tem no elenco Ênio Golçaves, Nelson Xavier e Sandra Corveloni (ganhadora da Palma de Ouro de Melhor Atriz em Cannes com Linha de passe, de Walter Salles). Lançado em 1857, em Paris, o livro é o primeiro estudo de Kardec sobre o espiritismo, no qual descreve todas as noções básicas da doutrina. Também produzido pela Estação da Luz, o filme está apontado para entrar no circuito nacional em 7 de outubro.

– Primeiro, ofereceremos a obra dele, depois, sua vida – explica Girão. – O Kardec é desconhecido no país dele, mas é seguido e estudado por cerca de 20 milhões de pessoas em todo o mundo. Nosso filme vai fazer justiça a essa figura extraordinária lá, na França, e aqui, no Brasil. E também concretiza o sonho de fechar uma trilogia geral sobre o espiritismo, iniciada com Bezerra de Menezes e Chico Xavier.

Por se tratar de uma produção de ambições internacionais, os idealizadores do filme estão buscando parceiros fora do país. O primeiro passo neste sentido foi dado ainda ano passado, no mercado do Festival de Cannes, onde os produtores de Liberté – A história de Kardec começaram a prospecção de eventuais sócios para a empreitada. Os brasileiros, que voltarão ao festival francês este ano para continuar as negociações, não escondem que perceberam um certo preconceito dos europeus em relação à imagem de Kardec.

– Na França, há uma certa resistência em relação a temas religiosos – conta Ricardo Rihan, da Lighthouse, coprodutora de As mães de Chico Xavier e agora do longa sobre Kardec. – Os últimos 12 meses foram de puro aprendizado. Os franceses nunca vão aceitar o Kardec como uma personalidade religiosa, mas ele foi um grande pensador. Então, estamos apresentando o filme como um projeto educacional e não como religioso. Estamos nos preparando para nos encontrarmos com uma produtora de Lyon, cidade onde Kardec nasceu, em maio, durante o Festival de Cannes.

Rihan descreve Liberté como “uma visão brasileira de Kardec para o mundo”. E calcula que um filme com estas ambições não saia por menos de R$ 7 milhões:

– O orçamento final vai depender do roteiro, cujo primeiro esboço está sendo acertado com dois roteiristas de alto gabarito. Estamos em negociações avançadas com um diretor brasileiro, que está entre os grandes do cinema nacional, para assumir a direção.