Villas-Bôas Corrêa: Um homem de bem

Há quanto tempo não tenho a grata oportunidade de qualificar um militante na desmoralizada categoria políticos da decadência do Congresso, em empate que não enobrece o Legislativo, como na unanimidade que lamenta a morte do ex-vice presidente José Alencar, que conheci em Belo Horizonte como próspero  empresário do setor têxtil e fundador de um império industrial, comandado pela Coteminas, por ele fundada em Minas na década de 60! 

Nasceu pobre, estudou numa escola de taipa e começou a trabalhar aos 14 anos como balconista numa loja de tecidos A Sedutora. Daí para Caratinga, onde continuou como balconista. E aos 18 estabeleceu-se como comerciante, com a loja A Queimadeira, que vendia de tudo, roupas, calçados, guarda-chuvas, chapéus, com o sucesso que o acompanharia por toda a vida. Vendeu a loja para mudar de ramo. Sócio da Fábrica de Macarrão Santa Cruz, com a morte do irmão Geraldo, assumiu a empresa  União dos Cometas. 

Mudou de ramo e assumiu a empresa União dos Cometas. Fundou  em Montes Claros, com o deputado Luiz de Paula Ferreira, em 1967, a Companhia de Tecidos Norte de Minas, a Coteminas, que conta hoje 15 fábricas no Brasil, cinco nos Estados Unidos, uma na Argentina e uma no México. Com 16 mil funcionários, é a maior empresa têxtil do Brasil.  Abastece os Estados Unidos, Europa e Mercosul. Sempre como um homem de bem.

Enfrentou o câncer que o levaria à morte com  a mesma bravura e serenidade. Nunca uma palavra de queixa ou revolta, Com a mesma naturalidade com que tratava de uma gripe ou dor de dente. Brincava com os médicos sobre a sua doença e com a ponta de orgulho por saber tanto do câncer como os médicos que o tratavam.

Burilou sentenças que os jornais registram: “A morte é um fenômeno natural. Assim como você nasce, você vai morrer um dia, e não temos que ficar pensando nisso. Você vai viver o tempo que Deus quiser que você viva”.

Na carreira política, o mesmo bom humor e modéstia. Conta que nas eleições de 1989 entrou na cabine disposto a votar em Lula.  Na hora recuou e anulou o voto. “Tive medo”. E 13 anos depois ajudou a eleger o Lula presidente e elegeu-se vice-presidente. O vice impecável pela lealdade e a modéstia. Um homem de bem.

Em  1998 foi eleito senador  na chapa do PMDB. Mas foi um senador independente que apoiou a criação da CPI da Corrupção para investigar o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Recusou o apelo do presidente para votar contra, justificando em carta as suas razões.

Em 2001 começa a sua aproximação com Lula, em campanha para a Presidência. Compõe a chapa como candidato a vice. Ainda na articulação da aliança, o diagnóstico de câncer na próstata. Eleito, a relação entre o presidente Lula e o vice José Alencar passou por crises logo contornadas. O vice manteve o discurso de oposição da campanha. 

Defendeu uma reforma tributária, denunciou a irresponsabilidade fiscal no país. Lula convida o seu vice para assumir o Ministério da Defesa, para resolver uma crise no Exército. Ficou no cargo até maio de 2006. Em 2005 o escândalo do mensalão ganhou as manchetes da imprensa. O vice José Alencar estava no PL, um dos partidos enrolados na questão.

Driblando constrangimento: o vice José Alencar estava no apartamento com Lula em que José Dirceu e Waldemar Costa Neto acertaram os repasses do PT ao PL.

As especulações de que Lula disputaria a reeleição em 2006 com outro vice foram sepultadas pela evidência de que a chapa seria o repeteco com José Alencar na vice.

O câncer voltou em julho, Alencar retirou o tumor da região abdominal. No hospital assumiu a vice. E ao sair, mais uma frase redonda: “O médico me deu alta. Daqui para a frente ele não manda mais”.

José Alencar não morreu derrotado. Mas com o reconhecimento virtualmente unânime de que foi um homem de bem.