Ajuda a qualquer custo

A organização humanitária Médicos Sem Fronteiras completa 40 anos com novos desafios no Japão e na Líbia

A catastrofe natural no Japão e a guerra na Líbia jogaram luz novamente sobre os Médicos Sem Fronteiras (MSF), organização criada na França, por jovens médicos e jornalistas que atuaram como voluntários em Biafra, na Nigéira, na década de 60. Enquanto socorria vítimas na brutal guerra civil, a equipe percebeu as limitações da ajuda humanitária internacional: dificuldade de acesso e entraves burocráticos e políticos.

Há seis anos atuando na MSF, Tyler Fainstat, de 32 anos, hoje atua como diretor-executivo da organização no Brasil. Mestre em Relações Internacionais e Economia Internacional, esse canadense já participou de missões no Congo, na Colômbia, no Sudão e no Complexo do Alemão.

Ele falou ao Jornal do Brasil sobre as dificuldades e sobre os recursos que mantém a organização ativa há 40 anos. E revelou que os brasileiros são sempre bons candidatos a entrar no grupo.

Como vocês selecionam seus profissionais?

Buscamos um perfil bem específico. Os candidatos precisam falar outros idiomas, ter experiência profissional, flexibilidade e disponibilidade para trabalhar em locais em condições bastante difíceis. Recebemos muitos candidatos, e, no geral, os profissionais brasileiros atendem aos nossos requisitos. 

Quantas pessoas o MSF socorre por ano?

É muito difícil dizer. Por exemplo, em 2009, oferecemos mais de 7,5 milhões consultas ambulatoriais e cerca de 290 mil internações hospitalares em nossos projetos. Oferecemos tratamento antirretroviral a mais de 190 mil pessoas, em 53 projetos, e vacinamos quase 8 milhões contra a meningite na Nigéria e no Níger.

Como é o trabalho da equipe do MSF na Líbia?

Conseguimos entrar na Líbia em 25 de fevereiro e ficamos em Benghazi até 15 de março. A equipe teve muita dificuldade de chegar às áreas mais atingidas pela violência. Fizemos inúmeros apelos para que o acesso aos cuidados de saúde fosse garantido, mas com o agravamento da insegurança, tivemos que voltar ao Egito. Outra equipe conseguiu retornar ao país no último dia 28. Montamos um programa de saúde mental na fronteira com a Tunísia, oferecendo cuidados psicológicos àqueles que conseguem fugir.

E no Japão?

Nossas equipes chegaram às áreas mais atingidas 48 horas após a catástrofe. Fizemos avaliações em diferentes locais e verificamos que, apesar da enorme capacidade de reação do governo e da sociedade, ainda havia grupos de pessoas em áreas isoladas sem  ajuda médica, principalmente idosos com doenças crônicas. Estamos nos concentrando em suprir as necessidades destes.

Na sua opinião, qual a importância da organização?

Levamos ajuda humanitária a locais em que existem poucas – ou nenhuma – alternativas de acesso a cuidados médicos de qualidade. Definimos onde vamos atuar apenas com base nas necessidades médicas da população, jamais levando em consideração interesses econômicos, políticos ou religiosos. No Afeganistão, nossa clínica em Helmand é a única onde a população local pode buscar ajuda sem correr risco de retaliação, pois permanecemos como uma organização neutra.

Quem banca o MSF?

Mantemos essa independência graças às doações que recebemos de pessoas jurídicas e, principalmente, físicas do mundo inteiro. Em 2009, fizemos 362 projetos em 70 países com o orçamento de 393 milhões de euros.

Como chegou ao Médicos Sem Fronteiras?

Comecei como responsável pela logística em 2004, na República Democrática do Congo, em uma área devastada por décadas de guerra civil brutal.

E como foi sua trajetória na organização desde então?

Trabalhei na Colômbia, em áreas rurais onde a população se via encurralada pelo conflito entre governo, grupos de guerrilha e organizações paramilitares, sem rede de saúde. Em 2007, coordenei um projeto no Sudão, onde éramos a única organização a oferecer cuidados de saúde a mais de 200 mil pessoas. Também coordenei por dois anos as operações no Brasil, particularmente o projeto no Complexo do Alemão, que levava assistência a vítimas de violência.

Hoje o MSF está em missão em quais países?

Mais de 60, em todos os continentes. O número flutua, entramos ou saímos de um país de um dia para o outro, em função de novas crises que gerem mais necessidades. Não tínhamos projetos na Líbia até fevereiro. É uma situação volátil à qual temos que nos adaptar. Há outros países, como a República Democrática do Congo, Haiti e Colômbia, onde estamos presentes ininterruptamente há mais de 20 anos. 

Qual o critério usado para escolher os lugares para onde mandarão as equipes?

Trabalhamos em locais onde a população sofre com epidemias como malária, sarampo ou HIV. Também estamos onde há graves crises de desnutrição e em países onde a população civil sofre com conflitos ou catástrofes que deixam um grande número de feridos, dificultando o acesso à saúde. É importante destacar que não temos o objetivo de substituir o governo ou organizações locais.

Vocês precisam de autorização para entrar nos países?

Nossos profissionais precisam de vistos de entrada como qualquer pessoa. Como organização, negociamos com autoridades locais, Ministérios da Saúde. Procuramos, sempre que possível, trabalhar em colaboração. Muitas vezes precisamos negociar com todas as partes em conflito para obter uma mínima garantia de que nosso pessoal médico, bem como as estruturas de saúde, serão respeitados, como prega a lei humanitária internacional.

A política às vezes atrapalha o trabalho da organização? 

Somos uma organização neutra e imparcial, mas muitas vezes decisões políticas nos afetam. Um exemplo disso é a dificuldade de acesso à saúde para os civis líbios.