A arte em questão

No monólogo ‘45 minutos’, o autor Marcelo Pedreira, o diretor Roberto Alvim e o ator Caco Ciocler discutem as crises do teatro contemporâneo que vivenciam diariamente

As indagações expostas no espetáculo 45 minutos mexem bastante  com a classe artística. Não foi à toa que atores como Wagner Moura, Lázaro Ramos, Matheus  Nachtergaele e encenadores como Aderbal Freire-Filho e Felipe Hirsch já estiveram envolvidos com o projeto. Mas foi a dupla Caco Ciocler, em cena,  e Roberto Alvim, na direção, que acabou ficando com o texto de Marcelo Pedreira nas mãos. A peça, que estreia amanhã para convidados e sexta para o público,  conta a história de um ator em crise,  questionando-se se há algo de novo no reino da cultura. O teatro ainda  pode ser uma experiência transformadora? Qual é o papel das plateias sobre o produto que elas consomem? Quais os limites entre arte e entretenimento? 

– A classe média está se distanciando do teatro – acredita Caco.  – Ou acha que ali é um lugar apenas de entretenimento. Esse nunca foi o papel dele.

Conversando com amigos de profissão, Caco Ciocler percebeu que há um consenso na observação da cena atual: o interesse cada vez maior pelos musicais feitos à la Broadway e nos stand up comedies, e o desinteresse pelos outros gêneros.  

– Fazemos um stand up às avessas. É um ator que está ali  para entreter a plateia, mas não sabe mais como fazer isso – comenta  o paulistano, que estará no elenco de  quatro filmes que estreiam este ano, mas assume que o teatro é onde se sente mais confortável. – É o lugar onde  me sinto em casa. Gosto do processo de ensaios mais do que a própria temporada, de descobrir os personagens aos poucos. No cinema e na TV,  muitas  vezes, não há tempo para isso.

Este é o primeiro monólogo da carreira do ator. Com  cenário e recursos minimalistas, o espetáculo questiona se há a possibilidade de se fazer algo realmente novo em cena, depois de realismo, pós-realismo, teatro do absurdo...  

– É uma antipeça que se transforma em uma antiantipeça – define Alvim.  –O espetáculo começa com a premissa de que não há mais uma relação relevante entre público e teatro. Paradoxalmente, vai mostrando caminhos surpreendentes para a revitalização desse encontro. Embora não haja narrativa ou personagens convencionais, há uma experiência teatral realmente potente.  

Alvim foi responsável pelo bem-sucedido projeto Nova Dramaturgia Brasileira, realizado entre 2001 e 2004, quando dirigia o Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes. O trabalho revelou e consolidou as carreiras de autores como  Camilo Pellegrini, Daniela Pereira de Carvalho, Pedro Brício e Henrique Tavares, por exemplo, hoje em atividade constante. Mas ele não estava satisfeito. Em 2006, resolveu sair do Rio  para criar uma nova companhia, em São Paulo, a Club Noir, dedicada a encenar obras de dramaturgos contemporâneos, brasileiros ou não.  

– Resolvi me mudar porque senti que Rio de Janeiro e São Paulo encaravam a arte autoral de maneira bem diferentes – declara Alvim, que é carioca. – Percebi que, lá,  havia maior interesse em formas menos convencionais de produção artística. Por um trabalho reflexivo mais profundo. E tenho que dizer que o reconhecimento de público e crítica tem sido bem maior.

A peça 45 minutos é a primeira que dirige depois da mudança. Para ele, vai ser uma espécie de teste para saber como está a mentalidade do público carioca. 

– Em São Paulo, temos um teatro pequeno, de 50 lugares, mas que está sempre lotado, com pelo menos, 30 pessoas voltando para a casa de quinta a domingo – explica Alvim. – E com trabalhos sempre focados na produção de pensamento em arte. No Rio, sempre houve maior interesse na celebridade. Quero ver se agora há mais  do que isso. 

Autor do espetáculo, Marcelo Pedreira  adiciona outras dificuldades na hora de se montarem espetáculos menos convencionais e mais transgressores (“no bom sentido, claro”). 

– Os patrocínios hoje estão nas mãos de diretores de marketing, que  não têm nenhum comprometimento com a arte  – alfineta o dramaturgo, que, mesmo com os reveses  monta, com 45 minutos, o terceiro espetáculo de sua autoria este ano. – Se Nelson Rodrigues chegasse a uma grande empresa para captar hoje e dissesse que Os sete gatinhos   era uma peça com prostitutas, jamais teria conseguido. Hoje, ele é um ícone, mas não  teria convencido uma empresa. Há poucas delas com perfis mais abertos para os espetáculos transgressores. 

Pedreira sente o problema na pele. A inevitável história de Letícia Diniz, baseada no romance homônimo sobre uma trajetória fictícia de uma travesti que vem de Rondônia para o Rio, não conseguiu patrocínio para o teatro, onde ficou em pequena temporada  no Sergio Porto. Mas ganhou edital da Petrobras, para virar um curta-metragem, que será filmado no segundo semestre. 

– Se não fossem os editais, não conseguiria filmar uma história com sexo, violência e homossexualismo – acrescenta ele, que também está penando para  montar Sexy times, monólogo com Lúcio Mauro Filho (atualmente em cartaz com Clichê, também de autoria de Pedreira), sobre fetiches sexuais. 

– Com isso, o público acaba privado de ver algo mais transformador –  encerra.

Teatro Sesi, Rua Graça Aranha, 1, Centro (2563-4168). 5ª a dom., às 19h30. R$ 40. Duração: 1h. Classificação etária: 12 anos. Estreia para público na sexta-feira.