A exposição à poluição do trânsito pode ser mais prejudicial à saúde do coração do que o uso de cocaína. Este é o resultado de um estudo da Universidade de Hasselt, na Bélgica, que analisou 36 pesquisas sobre as diversas causas de infartos e mostrou que os gases liberados pelos veículos podem se tornar um problema de saúde pública. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a poluição do ar provoca cerca de 2 milhões de mortes prematuras todos os anos no mundo.
Para quem vive em áreas urbanas, o maior problema está nas ruas. Segundo os últimos dados do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), os veículos motores são responsáveis por 77% de todas as emissões de poluentes no estado do Rio de Janeiro. Somente na Região Metropolitana, são mais de 3 milhões de toneladas de gases – entre eles o monóxido de carbono – emitidos todos os anos.
Para Paulina Porto, gerente de qualidade do ar do Inea, a poluição do ar no Rio de Janeiro não cresce de forma insustentável, mas ainda apresenta níveis prejudiciais à saúde da população. Os engarrafamentos, diz ela, são os grandes vilões.
– O “anda e para” do trânsito emite muito mais poluentes do que o trânsito livre – explica. – Se não há planejamento urbano para desafogar o trânsito, não adianta nada pagar mais caro por coletivos menos poluentes, por exemplo, se a frota não tem mobilidade e vai continuar emitindo muito mais poluentes.
Segundo o Detran, órgão responsável pela fiscalização dos veículos, a aferição de gases poluentes é feita desde 1997, mas somente os veículos de grande circulação, como ônibus, caminhões, vans e táxis ficam impedidos de circular caso forem reprovados. Sob a justificativa de que poluem menos, os carros podem andar à vontade, levando, apenas, a expressão “gases inaptos” no documento, segundo informação do Detran.
Segundo Nelson de Albuquerque Souza e Silva, diretor do Instituto do Coração Edson Saad, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, já é sabido que o monóxido de carbono – substância presente na fumaça de cigarro e também emitida por veículos a motor – provoca alterações no organismo que acabam causando danos às artérias. Outras substâncias como o dióxido de enxofre, óxido de nitrogênio, ozônio, chumbo e outros metais pesados também são prejudiciais.
– A poluição pode ser um fator de risco para as doenças cardiovasculares mais grave do que o diabetes ou o colesterol alto – revela. – O ar de baixa qualidade inclui muitas substâncias que são prejudiciais à saúde do ser humano e provocam não só as doenças do coração mas também diversos tipos de câncer, que são as maiores causas de morte hoje.
Nelson faz um alerta também para quem costuma fazer ginástica na rua.
– Mesmo quando estamos praticando exercícios físicos para manter ou melhorar nossa saúde, podemos estar expostos a ambientes adversos – observa. – Devemos sempre escolher locais não poluídos para praticar nossas atividades físicas, pois assim provavelmente estaremos melhorando nossa performance e diminuindo a probabilidade de ter um infarto.
No entanto, Tim Chico, especialista em saúde do coração da Universidade de Sheffield, Reino Unido, adianta que, para reduzir as chances de ter um ataque do coração, não basta evitar os ambientes poluídos.
– O que desencadeia o ataque de coração deve ser considerado a gota d’água – afirma. – Se alguém quer fugir de um infarto, deve se exercitar, manter a dieta saudável, peso ideal e não fumar.