Editorial: Um soldado do fogo fez o clima esquentar

Merece muita atenção a entrevista do capitão Lauro Botto, do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro, publicada nas páginas seguintes. Preso por suas críticas à estrutura da corporação, Botto expõe problemas como a alocação de bombeiros médicos em UPAs e hospitais públicos, os baixos salários, que os tornam  vulneráveis ao assédio de milicianos, e até a falta de material de trabalho – segundo ele, muitos trabalharam nos resgates das enchentes na Região Serrana sem luvas.

As denúncias são incômodas para a população do Rio, que depende dos bombeiros para socorro imediato nas mais diversas situações. Saber que muitos são contratados para atuar como médicos em hospitais públicos poderia ser tranquilizador, mas, quando se descobre que são submetidos a horários e disciplina militar, surge um temor pelas condições emocionais em que esses médicos estão atuando. Quem gostaria de ser atendido por um doutor ameaçado permanentemente de prisão?

Quanto ao aparato logístico do Corpo de Bombeiros do Rio, o capitão deixa claro que foram feitos investimentos, mas ainda há carências que perturbam, como o caso da falta de luvas e de protetor solar para os salva-vidas.

O capitão Botto foi preso pela segunda vez anteontem. Amargou  também uma transferência para um quartel a 160 quilômetros de onde mora. A corporação negou uma retaliação, mas ficam no ar as denúncias, que podem entrar em combustão caso não sejam objeto de análise séria.