Mauro Santayana, Coisas da Política

Das guerras  civis mundiais

O físico e filósofo  alemão Carl Friedrich Weizsäcker foi personalidade enigmática do século passado. Pertencente à alta nobreza germânica, ele se destacou, ainda muito jovem, como companheiro de Heisenberg nos estudos do núcleo atômico. Em 1938 começou a empenhar-se nos estudos teóricos para a fissão nuclear com fins militares. Em 1939, como discípulo de Heisenberg, Weizsäcker participou de encontro com o estado-maior alemão, quando já se sabia como enriquecer urânio, e se decidiu pela produção da arma. No ano seguinte, o projeto se interrompeu, segundo ele mesmo diria, por obra da graça divina: a Alemanha, já em guerra, não dispunha dos recursos necessários. 

Há, também, a informação de que Weizsäcker e seus companheiros não estavam entusiasmados com a ideia de dar aos nazistas a arma do juízo final. Apesar disso, ele é um dos cientistas citados por Einstein, como empenhado em produzir a bomba, na carta enviada ao presidente Roosevelt, que levou os Estados Unidos ao Projeto Manhattan.

Weizsäker se tornou, depois de passar algum tempo detido pelos ingleses, notório pacifista. Em 1957, como professor de filosofia em Hamburgo, foi um dos 18 signatários de um documento contra o armamento atômico da Alemanha Ocidental. Weizsäcker nos interessa, neste momento, como filósofo político. Coube-lhe criar duas palavras em alemão que se tornam atualíssimas nestes dias de rebelião nos paises árabes. Uma delas é Weltinnenpolitik, que pode ser traduzida como política interna mundial, e a outra, com a mesma expressividade, é Weltbürgerkrieg, guerra civil mundial.

Weizsäcker pensava no século 20, e considerava a Primeira Guerra Mundial como o início dessa guerra civil planetária, que prosseguiria com o conflito de 1939-45 e as guerras localizadas que se seguiram. Mas a teoria de Weizsäcker é intemporal. Quando há  modo de viver que se torna comum a muitos países, mediante as informações circulantes, a política interna dos estados nacionais recebe, de uma forma ou de outra, sua influência. É assim que, com mais ou menos intensidade, forma-se o que podemos chamar de “política interna mundial”. Esse modo de viver, durante o Império Romano, foi  substituído pelo cristianismo, ao se tornar triunfante. Aos pensadores da Igreja coube desfazer os padrões ideológicos antigos, e manter, na Idade Média, o domínio político da Europa, mediante o entendimento precário  entre os papas e os reis. 

Os observadores políticos e diplomáticos talvez se equivoquem ao analisar os episódios que se iniciaram na Tunísia e  se repetem em todos os países da região. E os norte-americanos e europeus talvez se equivoquem ainda mais ao incentivar os movimentos – que já se identificam como revolucionários naqueles países. Ainda não conseguiram deixar o Iraque e o Afeganistão com honra, e já se metem no Norte da África. 

O modo de viver, no mundo de hoje, é o do american way of life, baseado no consumo desmesurado de energia e no hedonismo. Dependentes do petróleo alheio, não podem dele privar-se, antes que encontrem um sucedâneo do mesmo custo e desempenho. Por isso se inquietam. As rebeliões, nesses países árabes – todos eles seus servidores até agora – não lhes prometem tempos melhores. Mas sua intervenção militar contra Kadafi – ou em qualquer outro país da região – será apenas a ampliação de seus problemas. Kadafi, por sua vez, está pagando o preço de sua genuflexão recente. Passou a ser inservível.

As rebeliões árabes se fazem contra a desigualdade e contra os governantes larápios. A internet lhes possibilitou conhecer um pouco da verdade. Onde houver internet, desigualdades, desrespeito aos direitos humanos,  e governantes corruptos, há sempre a possibilidade de dias e meses de ira, com consequências históricas imprevisíveis.