Prova de fogo

Projeto mais desafiador do diretor Zé Celso, ‘Os sertões’, dividido em cinco espetáculos, é lançado agora em DVD e negociado para exibições nas cinematecas do Rio e de São Paulo

José Celso Martinez Corrêa é um encenador que se lança em tarefas que nos parecem  impossíveis. É só dar uma olhada na listinha de feitos: empreendeu uma desconstrução carnavalizada do Hamlet shakespeariano e  escreveu textos sobre o mito Cacilda Becker, transitando entre as informações relativas ao percurso da atriz e o delírio comatoso, durante os 40 dias em que permaneceu internada no hospital por causa de um aneurisma cerebral.  Tem (bem) mais. Ele orquestrou uma festa orgiástica e dionisíaca em Bacantes; e trocou as habituais cores esfuziantes por tons mais sombrios na montagem de Os bandidos, realizada a partir de Os bandoleiros, de Schiller. Mas no projeto de Os sertões, Zé Celso definitivamente se superou. O livro de Euclides da Cunha, que palmilha a região nordestina até desembocar na Guerra de Canudos (1896/1897), ganhou transposição cênica de 26 horas de duração, devidamente divididas em cinco espetáculos – A terra, O homem 1, O homem 2, A luta 1 e A luta 2. Como se não bastasse, as montagens foram registradas em DVD por diretores diferentes, que agora chegam ao mercado (R$ 125). 

Quem não viu poderá conferi-las; quem assistiu ganha uma nova chance de revê-las a partir de perspectivas diversas. O Grupo Oficina está, neste momento, negociando exibições com as cinematecas de São Paulo e do Rio de Janeiro e na cidade de Canudos.

Não é de hoje que o Oficina se apropria da linguagem audiovisual na construção de seus espetáculos, que também vêm sendo registrados há alguns anos. Em 2001, Ham-let, Bacantes, Cacilda! e Boca de Ouro foram filmados. A diferença é que, no caso das montagens que compõem Os sertões, o próprio Oficina se encarregou da produção. 

– Chamamos os filmes feitos a partir de Os sertões como objetos visuais não identificados – conta Tommy Pietra, que passou a integrar o grupo em 1998, encarregado de dirigir A terra, primeira e (segundo muitos) mais árida parte do livro. 

A participação dos espectadores se revelou determinante para o resultado.

– Os ensaios de A terra foram abertos ao público, que, desde o início, começou a entrar em cena – descreve. – Os espectadores não foram incluídos só nos momentos de celebração. Também formaram a geografia do espetáculo: as montanhas, o mar. Jamais cogitamos filmar para o DVD sem plateia.

Fernando Coimbra, que assinou o registro de O homem 1, filmou o espetáculo durante duas noites – numa com 11 câmeras, na outra com 12.

– Na primeira noite, fiz uma gravação mais técnica, com planos gerais – explica. – Na segunda, investi em planos mais fechados, nos detalhes.

Integrante do Teatro Oficina entre 1996 e 2007, Coimbra sentia especial familiaridade com O homem 1.

–  Participava de algumas cenas que acabei transferindo para outro ator para poder filmar a encenação – informa. 

Se a dificuldade de A terra se concentra na aridez da escrita, a de O homem 1 parece residir em outro lugar.

– É complicado adaptar para teatro porque, nessa parte, Euclides da Cunha se dedica a reflexões sobre o processo de formação do homem brasileiro – justifica. – Precisamos desenvolver um trabalho mais intenso com o texto para transformá-lo em ação.

O DVD de O homem 2 é assinado por dois diretores: Marcelo Drummond e Gabriel Fernandes. 

– No começo Drummond dirigiria sozinho – observa Fernandes, que ficou no Oficina entre 2003 e 2008. – Mas eu acabei assumindo uma postura de diretor na hora da edição.

A ação começa a se impor com mais preponderância nessa parte de Os sertões, marcada pelo encontro dos jagunços com Antonio Conselheiro e pela formação de Canudos.

– Queria transmitir a importância de Canudos como acontecimento histórico – ressalta. – Investimos numa perspectiva mais documental, como nas cenas em que o público toma o palco como se fosse o povo de Canudos.

A Guerra de Canudos desponta em A luta 1. Não por acaso, reproduzir a atmosfera de guerra, tanto na montagem quanto no filme, foi uma das principais preocupações.

– Vimos filmes de guerra e procuramos explicitar as dificuldades dos soldados em entrar num campo que não conheciam – assinala Elaine Cesar, encarregada da direção desse DVD, presente no Oficina desde 2001.

Elaine contou com a presença de Zé Celso durante a realização do filme.

– Ele deu muita liberdade aos diretores – declara ela, que também trabalhou num registro cinematográfico reduzido da montagem de Os bandidos. – Nas filmagens de Os sertões, pudemos decidir sobre a concepção, o número de câmeras. E Zé Celso costuma participar do processo de montagem.

Únicos diretores de fora do Oficina, Eryk e Pedro Paulo Rocha ficaram incumbidos de A luta 2, última parte da saga de Euclides da Cunha transportada para o teatro por José Celso Martinez Corrêa.

– Registrei as cinco horas e meia de espetáculo – relata Eryk. – Foi uma experiência épica. Encaro Os sertões como um musical dionisíaco ligado à formação da cultura brasileira, ao que somos hoje.