Creche caseira

Proposta prevê apenas 20 horas de treinamento para cuidar de crianças de zero a 3 anos

 

Estatísticas indicam que apenas 19% das crianças de zero a três anos de todo o país estão matriculadas em creches. Na Câmara  uma proposta polêmica pretende melhorar esses índices com a criação de creches domiciliares. O objetivo é dar uma alternativa às inúmeras mulheres que são impedidas de trabalhar , por não terem com quem deixar os filhos. Educadores, no entanto, torcem o nariz para o projeto.

A ideia é que as donas de casa interessadas se inscrevam e recebam um treinamento de 20 horas sobre os cuidados com as crianças, que seria realizado pela escola mais próxima de sua casa. Também é prevista uma inspeção na casa onde se pretende instituir uma creche para verificar as condições do local e da família. As crianças receberiam merenda da escola e atendimento do posto de saúde. As creches funcionariam provisoriamente até que as definitivas sejam construídas.

A deputada Fátima Bezerra (PT-RN), que presidirá a Comissão de Educação da Câmara e é pedagoga, afirma que a apesar da boa vontade do projeto, o atendimento às crianças pequenas exige ainda mais cuidados que com as crianças maiores. E que a carência de vagas para os pequenos deva ser suprida com políticas governamentais que privilegiem o apoio técnico e financeiro do governo federal aos municípios.

– É fato que não podemos perder a de vista a qualidade do ensino. E todos sabemos o quanto essa fase é importante para o desenvolvimento da criança - afirma a deputada.

O autor do projeto, deputado licenciado Luiz Carlos Pitiman (PMDB-DF) - hoje secretário de Obras do DF - defende que a promessa da presidente Dilma Rousseff de construir seis mil creches até o final do governo não resolve de imediato o problema. 

E afirma que, além de um lugar para deixar as crianças, as creches domiciliares podem permitir que pessoas realmente interessadas em trabalhar possam se beneficiar dos programas sociais do governo. Pitiman rebate as críticas dos educadores sobre a qualidade dessas cuidadoras:

– Estamos tratando de crianças de zero a três anos, que precisa mais dos cuidados de uma mãe do que de uma educadora. Mas mesmo assim, com o apoio da escola mais próxima, estamos dando uma opção para a criança. É muito bonito uma educadora falar que precisa mais e que precisa priorizar a qualidade. Mas vamos deixar as coisas como estão? – rebate Pitiman.

Retrocesso

Para Maria Aparecida Salmaze, presidente da Organização Mundial para Educação Pré-Escolar – ong vinculada à Unesco e ao Unicef – instituir as creches domiciliares no país seria um “retrocesso”. Ela defende que, apesar do baixo índice de crianças que tem acesso à educação infantil, as “mães crecheiras” estão longe de ser solução.

Ela reconhece que a creche domiciliar ainda existe em muitas cidades. Mas lembra que, mesmo assim, é preciso haver estrutura escolar com diretor, coordenador pedagógico e secretário, além dos professores. Em alguns lugares, os profissionais precisam inclusive fazer cursos de primeiros socorros. 

–Temos que lutar para que a criança tenha uma creche com profissional formado. As pessoas tem que pensar na educação infantil como escola. Hoje vemos tantos de casos de maus tratos, mesmo em instituições com tudo regularizado. O que pode acontecer ao deixar essas crianças com uma pessoa sem formação? – questiona ao adiantar que a entidade tentará barrar o projeto.