Wilson Figueiredo: Coisas da Política

Como se soletra reforma política

Com  os novos-ricos  lá em cima, os pobres lá embaixo, e, por toda parte, a herança dos gastos feitos pelo antecessor, o novo governo teria mesmo de apelar para o modesto salário mínimo na hora de pagar as contas que começaram a chegar. O ex-presidente Lula marca de perto a sucessora e faz o possível para que o governo Dilma Rousseff não ganhe autonomia de voo com a proposta de reforma política para valer.
Da parte de Lula, como ocorreu nas oportunidades em que a reforma foi cogitada no seu governo, era melhor do jeito que estava. Sem ela. Foi um jeito de se subentender sem se comprometer. Lula não tinha queixas da política (como era praticada e continuou)  no primeiro mandato,  cujo ápice foi o mensalão. Era interessado em confundir e descartar a reforma. Sabe lidar com os costumes e com quem pode contar. Eventualmente, bem entendido. Para que mudar? O efeito final,  seja como for, vai soterrar os dois mandatos anteriores sob o mesmo refrão – “nunca, antes, na história deste país”. Nem se cometeu tanta reincidência a título de  coincidência.

Com sotaque de ex-candidato,  José Serra não esperou cumprir-se o prazo de 100 dias concedido a qualquer governante, extensivo ao perdedor, como se este governo fosse a inevitável continuação do anterior e não pudesse se habilitar às diferenças implícitas. O que a presidente Dilma Rousseff tem demonstrado  –  sobre modos de governar e liberdade de imprensa – é suficiente para medir a distância que a deixa  cada dia mais longe da prática do lulismo (e não do próprio Lula). Semelhanças e diferenças dizem, de modo desigual, a mesma coisa, e se completam em qualquer língua. As coincidências não falam claro, nem dizem tudo.

O que Serra refere como “festival de barganhas”, a título de novidade, vem – desde muito antes – se tornando a razão de ser da política brasileira,  cuja sobrevivência, no deplorável estágio atual, só estará garantida se a reforma for transferida, sem data, para as calendas gregas.  Governo, como qualquer atividade pública que não se preze, acaba em festivais de vários calibres.

Nunca é demais lembrar que Dilma Rousseff e José Serra se apresentaram em etapas diferentes da evolução política brasileira, e vieram da esquerda para o centro pela evolução universal da democracia. A ordem de circunstâncias relativas a um e a outra –  um na legalidade e outra no plano inclinado da ditadura – não altera o resultado. Serra viveu, sem ilusões, a limitação de esquerda depois de 1964, aplicou-se ao pensamento nacionalista no pequeno espaço político disponível. Acabou no exílio. Depois do AI-5 (1968), por falta de alternativa, nada mais a fazer.

Na época em que não havia ação política legal, a juventude encaminhou Dilma para a via revolucionária. As diferenças entre a política e o apelo revolucionário se mantiveram na volta à legalidade. Não houve – nem antes nem depois – qualquer convergência possível. O que se viu na campanha eleitoral, por intermédio de Lula, intensificou tensões históricas acumuladas em divergência sem proveito.

Serra observa que a presidente fala pouco e nunca de improviso “para fingir que nada disso é com ela”. E não é mesmo: é com Lula. A respeito do que não diz sobre o PSDB, estará Serra disposto a encarar? Depois deste “período de reflexão”, diz que vai “debater o Brasil”. Pois que se apresente, com os seus 44 milhões de votos e a experiência de deputado, senador, líder de bancada, ministro (duas vezes), prefeito de São Paulo (capital) e governador de São Paulo (estado) na oportunidade da reforma política. Com ou sem reforma, a política é a arte do possível e, às vezes, do impossível. Quanto a revoluções, só depois se pode saber.