Suspense repleto de ambições

Em seu novo romance policial, ‘A paciência da aranha’, Andrea Camilleri aborda com habilidade a assagem do tempo, os contrastes existentes na Itália, e deixa os leitores curiosos até o desfecho final

A vocação do veterano escritor italiano Andrea Camilleri para o exercício do romance policial fica, mais uma vez, evidente em A paciência da aranha (editora Record). A narrativa é ágil. Prende a atenção do leitor ao longo dos 17 adequadamente econômicos capítulos do livro, estruturados através de diálogos rápidos e eventuais parágrafos volumosos. Camilleri retoma o personagem do comissário Salvo Montalbano, envolvido, desta vez, no desvendamento de um sequestro – o da jovem Susanna Mistretta, descendente de uma família tradicional, outrora rica, hoje falida.

Por que os sequestradores teriam capturado a integrante de uma família sem condições de pagar o resgate? Aos poucos, o autor apresenta os personagens que gravitam ao redor de Susanna: o pai, o geólogo Salvatore, a mãe, a terminal Giulia, o namorado, Francesco Lipari, e os tios, o médico Carlo Mistretta e o engenheiro Antonio Peruzzo.

Durante boa parte da trama, Montalbano, mesmo sendo um investigador talentoso, não consegue juntar as informações esparsas que recebe. Não é por acaso. O autor tece com habilidade a sua trama, desvendando a verdade apenas nas últimas páginas. É o que se espera de um livro dependente, em boa parte, da curiosidade que suscita no leitor.

Montalbano, claro, não perde a paciência. Tenaz e perfeccionista, como uma aranha construindo a sua teia (associação um tanto óbvia que justifica o título do livro), suporta a falta de indícios e as cobranças, tanto em esfera pública quanto privada. O vínculo passional com Lívia, que se envolve de maneira algo artificial com o desdobramento do caso Susanna, se impõe como o ângulo menos promissor do romance.

De qualquer modo, Andrea Camilleri não se contenta com a trama policial. Seu romance tem outras ambições. Traz à tona evidentemente uma reflexão sobre a passagem do tempo através da figura de Montalbano, experiente comissário em estágio avançado da carreira, hesitante entre o vínculo com Lívia e o desejo de recobrar a liberdade.

Apesar de conseguir, ao final, desvendar o mistério em torno do sequestro de Susanna, o protagonista se sente cada vez mais inadequado diante das mudanças do mundo. É o que Camilleri destaca através de observações espalhadas pelas páginas. Exemplo: ansioso por chegar à lojinha de Don Cosimo, “uma bodega minúscula, mas onde ainda se podiam encontrar coisas já desaparecidas de Vigàta, como, por exemplo, orégano em maço, extrato de tomate secado ao sol e, sobretudo, vinagre obtido com a fermentação natural do vinho tinto de alta graduação”, Montalbano se surpreende ao ser informado por um guarda, encarregado de administrar as novas e complicadas regras de trânsito do local: “... a loja está fechada. Não creio que abra mais. Don Cosimo morreu”.

A paciência da aranha também é um romance sobre a Itália. Camilleri volta a rebatizar sua cidade natal de Vigàta e ambienta a história na Sicília, fazendo constantes menções à realidade contrastante encontrada no país. Num determinado momento, Carlo Mistretta diz a Montalbano: “... o senhor esqueceu como é a Itália? Tudo aquilo que acontece no norte, fascismo, libertação, industrialização, só nos chega com muito atraso, como uma onda preguiçosa”, afirma, fazendo referência à Operação Mãos Limpas.

O autor documenta a paisagem rural italiana e utiliza personagens, às vezes mais que circunstanciais (“Titomanlio Giarrizzo, venerando ex-presidente do tribunal de Montelusa...”,  “Dona Concetta Pizzicato, que no mercado de peixe tinha uma banca...”), para destacar descompassos referentes à formação cultural e ao panorama social. Tudo devidamente realçado na tradução de Joana Angélica D’Avila Melo.