Dom Orani João Tempesta: Presbítero missionário

 

Neste mês de fevereiro, tivemos a quarta turma participando do retiro do clero desta arquidiocese. A reflexão sobre a identidade do presbítero, percorrendo os diversos momentos da história, alicerçando na Sagrada Escritura e nos documentos do Magistério está sendo uma oportunidade para renovar o entusiasmo vocacional. Um dos aspectos aprofundados é sobre a missionariedade do presbítero na Igreja. A missão permanente encontra na vida do padre um eco que anima os demais membros da Igreja para que, como discípulos missionários, contagiem com a generosidade de uma vida totalmente dedicada ao Reino de Deus.

A congregação para o clero publicou recentemente uma carta circular com as conclusões de sua assembleia plenária, com o título A identidade missionária do presbítero na Igreja. É uma oportunidade de refletir sobre essa tese nesse momento importante da história da Igreja. Esse documento, depois da introdução, onde vem recordada a vocação essencialmente missionária da Igreja peregrina, que por desígnio do Pai nasce na missão do Filho e do Espírito Santo, a carta vai aprofundando a temática de modo pontualizado em três seções:

Na primeira, ela trata da consciência eclesial da necessidade de um renovado empenho missionário, e isso não somente pensando naqueles que nunca ouviram falar no Cristo, mas é necessário um empenho cada vez mais atual de uma prática missionária no próprio rebanho da Igreja, ou seja, entre os batizados.

Na segunda, atesta os aspectos teológico-espirituais da missionariedade dos presbíteros, salientando que, “quando se fala de missão, é preciso levar em consideração, necessariamente, que o enviado – o presbítero, nesse caso – encontra-se em relação tanto com quem o envia como com aqueles aos quais é enviado. Examinando sua relação com Cristo, o primeiro enviado do Pai, é preciso sublinhar o fato de que, conforme os textos do Novo Testamento, é o próprio Cristo que envia e constitui os ministros de sua Igreja, mediante o dom do Espírito Santo concedido na ordenação sacramental. Eles não podem ser considerados simplesmente eleitos ou delegados da comunidade ou do povo sacerdotal. O envio vem de Cristo; os ministros da Igreja são instrumentos vivos de Cristo, único mediador”.

Na terceira, bem mais extensa, recorda que é necessária uma renovada práxis missionária dos presbíteros, e isso se faz necessário, porque: “A urgência missionária de nossos dias exige uma renovada práxis pastoral. As novas condições culturais e religiosas do mundo, com toda a sua diversidade, segundo as várias regiões geográficas e os diferentes ambientes socioculturais, indicam a necessidade de abrir novos caminhos para a práxis missionária”.

Essa prática é concretizada nos seguintes fundamentos: o missionário deve ser discípulo, discípulo na missão ad gentes, não apenas partindo para lugares distantes mas vivendo como presbítero fidei donum mesmo nas realidades de cada país, como o nosso, onde existem lugares ainda tão necessitados da presença de missionários, como a imensa Região Amazônica. A evangelização missionária é um constante convite, pois é preciso ir à procura dos nossos batizados, e também de todos os não ainda batizados, anunciar-lhes, de novo ou pela primeira vez, o querigma, ou seja, o primeiro anúncio da pessoa de Jesus Cristo, morto na cruz e ressuscitado para a nossa salvação, e de seu Reino, e assim conduzi-los a um encontro pessoal com Cristo. O presbítero exercitará sua vocação missionária fundado, sobretudo, no cumprimento fiel do tria munera em que se fundam o seu ministério: múnus de ensinar, santificar e governar

Não podemos permanecer com uma pastoral  só de conservação e de celebrações dos sacramentos e dos sacramentais. Dessa forma continuaremos atingindo apenas aqueles que participam de nossas comunidades. Necessitamos ir “mar adentro para águas mais profundas” para chegar a outras pessoas que também têm o direito de encontrar-se com Jesus Cristo. Precisamos de novos métodos de evangelização, à luz do Documento de Aparecida, para que nossos presbíteros sejam autênticos discípulos-missionários indo ao encontro dos fiéis, de suas necessidades, sempre anunciando e testemunhando Jesus Cristo.

Arcebispo do Rio de Janeiro