Carlos Eduardo Novaes: A guerra das bolinhas

Todo mundo sabe que para dar o pontapé inicial em um conflito armado serve qualquer pretexto. A História está cheia de exemplos, mas nenhum se compara ao enfrentamento entre Bolonha e Modena – estados independentes no século 14 – que começaram uma guerra por causa de um balde. Um balde sim senhor! Um balde de madeira que soldados de Modena roubaram em Bolonha. Os bolonheses se mobilizaram para recuperar o balde e a honra e iniciaram uma guerra que durou – pasme – 12 anos e terminou com a vitória de Modena. Até hoje o balde roubado (secchia repita) está lá, exposto no campanário de Chirlandina. Se um balde de carvalho pode iniciar uma guerra, que dirá uma rica taça de bolinhas!

Como nenhum torcedor rubro-negro ignora, a ambicionada taça encontra-se exposta na sala de troféus do São Paulo. Agora, porém, que a CBF reconheceu a conquista do Flamengo em 1987, o clube carioca se antecipou ao São Paulo nos cinco títulos brasileiros e quer levar a taça para a Gávea. O São Paulo já disse que não a entregará de jeito nenhum e, se necessário, vai escondê-la em um cofre no Morumbi. Por sua vez, o Flamengo declarou que vai buscá-la a qualquer custo: “a taça é nossa e ninguém tasca!”. Daí para um conflito armado, é um pulo. Os analistas de guerra já começam a se manifestar a respeito e afirmam que um confronto direto não será bom negócio para as tropas sãopaulinas. As divisões rubro-negras são em numero muito maior – se ainda fosse contra o Corinthians! – e, quando provocadas, entregam-se à luta com a disposição dos mongóis de Gêngis Khan.

Alguns cartolas da Gávea ainda procuram por uma saída negociada. A proposta de se levar a demanda para uma mesa de reuniões foi afastada ao se constatar que o problema se arrasta por 27 anos e periga durar mais do que aqueles encontros do Oriente Médio. Outras soluções mais simples foram propostas à presidente Patrícia Amorim: por que ela não convida o presidente do São Paulo, Juvenal Juvêncio, para decidir a taça em uma prova de natação? Talvez no par-ou-ímpar ou na porrinha (ainda joga-se?) ou, já que se trata de um conflito futebolístico, através de uma partida entre os dois clubes, de preferência em campo neutro.

A jovem presidente, no entanto, se recusa a entrar na disputa de um troféu que por direito é do Flamengo, após a decisão da CBF. As massas rubro-negras, no entanto estão inquietas. Não acreditam que o São Paulo entregará o troféu das Bolinhas de mão beijada e querem buscá-lo na marra. No QG das torcidas já está sendo traçado um plano para invadir o Morumbi. Antes que isso aconteça, deixe-me dar uma sugestão para encerrar de vez o caso: por que a CBF, que já fez tanta lambança não derrete a taça e divide as bolinhas entre os dois clubes?