A desgraça reformada

Museu Auschwitz-Birkenau, cenário de atrocidades nazistas, será mais didático para as novas gerações

Durante quase 60 anos, o campo de concentração Auschwitz, na Polônia, contou sua própria história, moldada após a Segunda Guerra. Depois de fechado,  tornou-se um museu com vitrines de cabelos, sapatos e outros objetos das vítimas, onde os visitantes se tornam testemunhas das atrocidades nazistas.
Agora, os encarregados de transmitir o legado deste campo insistem que Auschwitz precisa de uma atualização. Em parte, a mudança está relacionada à simples passagem do tempo: a renovação de uma exibição que está envelhecendo. Mas trata-se também das pressões do turismo, além da mudança de gerações.

Na última década, o número de visitantes de Auschwitz triplicou. Em 2000, cerca de 450 mil pessoas visitaram o local. Já no ano passado, foram 1,38 milhão de visitantes. O aumento se deve à explosão do turismo de massa e a programas educacionais que enviam estudantes para o local. A entrada é gratuita.
Autoridades da região sustentam que o lugar precisa dar uma explicação melhor sobre si mesmo, e  querem encontrar formas de envolver os mais jovens, para que eles sintam uma responsabilidade maior para com o presente.

– Deve haver uma conscientização sobre o significado desses fatos. A empatia é nobre, mas não é suficiente – afirma Piotr Cywinski, diretor do Museu Auschwitz-Birkenau.

A exibição atual foi elaborada pelos próprios sobreviventes, na década de 50. A nova proposta para o museu manterá os objetos pessoais dos prisioneiros, mas será iniciada com uma seção explicativa sobre o funcionamento do campo como uma instituição burocrática alemã nazista, tema ausente da atual exibição.
Na época, os sobreviventes queriam apagar da memória seus tormentos, e por isso falaram o mínimo possível sobre os alemães que tinham concebido e administrado o campo. Não destacaram histórias individuais ou testemunhos. A nova exibição tentará trazer aos visitantes exemplos   individuais e personagens com os quais o público pode se identificar.

Marek Zajac, secretário do Conselho Internacional de Auschwitz, salienta:

– Quem visitou o local depois da guerra sabia o que era a guerra, pois tinha vivido isso. A história de apenas uma morte  não comovia, já que tinham visto tanta gente morrer em suas famílias. Mas o número de mortes em Auschwitz era chocante.

A nova exibição pretende descrever o processo de extermínio, guiando os visitantes passo a passo pelo que as vítimas sofreram – terminando com uma seção sobre a vida no campo.

– Queremos mostrar, pela primeira vez, o grande leque de escolhas humanas que as pessoas enfrentaram em Auschwitz, a desumanização diária e as tentativas de manter a humanidade – explica Piotr Cywinski.
Para ele, o museu deve mostrar os atos humanos e as decisões que ocorreram em situações extremas, a diversidade de pensamento e raciocínio por trás das decisões. Desta forma, a população poderá fazer perguntas como: “Uma mãe deve entregar um filho a alguém e ir sozinha, ou levá-lo consigo?”.

– Em Auschwitz era preciso fazer escolhas – diz Cywinski.

Na reformulação do museu, um quartel usado para experimentos de esterilização – local praticamente intocado desde a guerra – será reaberto. Também será construído um novo centro de visitantes. Cywinski garante que pouca tecnologia será usada, para não ofuscar a autenticidade do local.

O conselho internacional se reunirá em junho para analisar as mudanças propostas para a exibição. Um concurso internacional vai selecionar um designer, e a nova exibição será aberta até 2015. O custo do projeto, de US$ 20 milhões, incluindo trabalhos de preservação dos prédios, deve ser pago pelo governo polonês.