Xô,ditador!

Seguindo os exemplos vitoriosos da Tunísia e do Egito, Líbia, Iêmen e Bahrein lutam pelo fim de suas tiranias

Os protestos contra os governantes do mundo árabe começaram em dezembro de 2010, na Tunísia. Inicialmente, a população queria chamar atenção para o crescente desemprego e o alto preço dos alimentos, mas logo passou a externar sua insatisfação popular com o preside Zine El Abidine Ben Ali. Um mês e 78 mortos depois, o ditador, há 23 anos no poder, fugiu do país e o primeiro-ministro Mohammed Ghannouchinte passou a governar.

O Egito seguiu o exemplo e começou suas manifestações para derrubar Hosni  Mubarak –  no poder havia 30 anos – em 25 de janeiro. Em 11 de fevereiro, o objetivo foi alcançado, e Mubarak caiu. Hoje, três países estão lutando com o mesmo propósito: Líbia, Bahrein e Iêmen.

O professor de Relações Internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Williams Gonçalves, afirma que as revoltas não aconteceram ao mesmo tempo por coincidência. Segundo ele, a influência dos acontecimentos no Egito e na Tunísia só atingiu os outros três países por eles apresentarem condições sociais, econômicas e políticas muito parecidas.

–  Isso aconteceu por causa da idade dessas ditaduras. Afinal, os ditadores não são imortais. Em algum momento, a questão da sucessão teria que ser discutida. Muitos desses países se tornaram independentes há menos de um século e estão passando por um estagio de maturidade política – analisa.

Assim como a Tharir Square, no Egito, a Praça Pérola, em Manama,  tem sido o epicentro dos protestos contra o governo de Bahrein, iniciados no último dia 14. Até hoje, oito pessoas foram mortas nos conflitos com as forças de segurança.

A população do Bahrein, no Golfo Pérsico, pede a transição do regime político para a monarquia constitucional e a saída do primeiro-ministro, Khalifa bin Salman, que está no cargo desde 1971 e é tio do rei Hamad bin Issa al-Khalifa. Além disso, a família monárquica que comanda o país é sunita, grupo muçulmano minoritário no país, onde a maioria é xiita.

O rei se mostrou aberto ao diálogo, liberando presos políticos e pedindo às forças de segurança que mantenham a segurança dos protestos. Entretanto, Williams Gonçalves acredita que os sunitas não cederão.

– Eles querem que os sunitas saiam do governo e escolheram um momento oportuno para externar o descontentamento. Mas o plano de fundo desta luta é a Arábia Saudita – diz.

Gonçalves afirma que a monarquia saudita tem medo que os sunitas tomem o governo,  pois isso os influenciará. Mas há uma peça ainda mais importante nesse jogo.

– Os Estados Unidos farão o possível para não permitir que os xiitas governem Bahrein, uma importante base militar americana. Para eles, isso representaria uma vitória do Irã.

Já na Líbia, a situação é diferente. Várias cidades, como Benghazi, Trípoli e Syrta estão tomadas por manifestantes descontentes com o regime de Muammar Kadafi, há 41 anos no comando. A resposta do governo é marcada pela violência e a ONG Human Rights Watch afirma que 233 pessoas já morreram durante os protestos, iniciados no último dia 15.

Em nota divulgada à imprensa, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil afirma estar trabalhando para viabilizar, o quanto antes, a evacuação dos cidadãos brasileiros que se encontram em Trípoli e Bengazi.

Ainda segundo a nota, um navio de grande porte partiu na última quarta-feira da Grécia com destino a Bengazi, onde um grupo de 148 brasileiros e cidadãos de outras nacionalidades aguardam o embarque.

No Iêmen, a situação é parecida. O povo luta contra o presidente Ali Abddullah Saleh, há 32 anos no poder, e estima-se que 15 pessoas já tenham morrido durante as manifestações, que começaram em 27 de janeiro. Saleh insiste que sairá do poder apenas depois das próximas eleições nacionais, em 2013.

Rogério Ribas, professor de História das Sociedades Islâmicas na Universidade Federal Fluminense diz que, apesar de não aceitarem, esse ditadores não têm para onde correr.

– O povo quer democracia, liberdade e um maior contato com o mundo ocidental, o que sempre lhes foi negado por estes governos islâmicos. A população sofre com a falta de separação entre Estado e religião e o governo precisa diferenciar uma coisa da outra.

Para ele, o povo busca um regime que  mantenha o respeito por Alá, mas onde não seja preciso pensar no alcorão em todas as atividades cotidianas.