Mauro Santayana: Coisas da Política

A palha e o raio de sol

Os governantes começam a ceder, e até a família Saud, senhora de todas as coisas em seu reino obscurantista, anuncia medidas políticas e sociais de alívio, com o objetivo de conter a rebeldia. O coronel Kadafi, no entanto, parece disposto a resistir até a morte – como anunciou ontem em  pronunciamento pela televisão.  O exercício inteligente do poder reclama, dos que o assumem, a consciência de seus limites e a necessidade de contestadores. Os adversários são necessários, em todos os espaços da vida social.

A esse propósito, o múltiplo Plutarco escreveu um ensaio, com o título expressivo de Como tirar vantagem de nossos inimigos. Os amigos podem ser mais perniciosos do que os adversários, e essa advertência é mais grave quando se trata do reduzido e angustiante universo do poder.

Há poderosos que revelam sua paranoia nos primeiros momentos, e outros conseguem dissimulá-la até que os espaços da razão são tomados pelas sombras. Hitler já era paranoico quando vagava pelas ruas de Viena, em busca de sua quimera. Cola de Rienzo, o audaz demagogo do século 13, estava já louco, quando imaginou ser possível restaurar o Império Romano e suas grandezas. Líderes florentinos,  foram convidados por ele a somar-se nessa fantástica aventura, desdenharam a oferta, com a lúcida resposta de que não havia necessidade de que se restaurasse o império que a História desfizera.

Mas há poderosos que começam bem e se deixam apodrecer pela septicemia da paranoia, que não conhece fronteiras ideológicas. Bush foi o exemplo e síntese da paranoia que ameaça os Estados Unidos, com tiroteios, massacres, suicídios em massa. O texano disse que a sua cruzada contra Saddam fora imposição de Deus, que o mandara invadir o Iraque: é certo que os atos de paranoia podem servir ao saque das riquezas alheias.

Os norte-americanos apostam nos movimentos de rebeldia nos países produtores de petróleo, mas lhes seria conveniente um pouco de sensatez. O mundo inteiro é hoje uma pradaria seca. Conforme dizia Mao, com a visão profética que o neocapitalismo chinês não invalidou, basta uma centelha para atear fogo aos prados ressequidos – e os prados americanos não estão verdes.

Há uma definição da loucura, que Diderot usou em uma de suas belas cartas a Sophie Volland: “Louco é aquele que apanha no chão um pedaço de palha seca e sai gritando que agarrou um raio de sol”. Algum físico poderá  dizer que um pedaço de palha não deixa de ser um raio de sol,  diminuta porção de energia que se transformou em matéria, e que guarda, em potência, uma labareda. O gesto do paranoico imaginário serve como metáfora à vertigem do poder sem limites.

Kadafi começou bem quando depôs o  rei Idris e nacionalizou o petróleo; passou a revelar suas hesitações, ao aventurar-se a atos de terrorismo. O bombardeio de seu palácio, pelos norte-americanos, que matou  sua filha, levou-o ao acordo com Washington e ao compromisso em combater o terrorismo. Agora, as tropas que ainda lhe são fieis massacram o povo. Ontem foi véspera do caos de sangue e fogo no país.

Também ontem, outro ato de loucura fez 30 anos: a tentativa de golpe militar na Espanha, iniciada com a invasão do Parlamento pelo tenente-coronel Tejero, da Guarda Civil Espanhola. Foi uma comédia farsesca, mas poderia ter sido uma grande tragédia da paranoia se homens, como o comunista Santiago Carrillo, e conservadores como Fraga Iribarne e Gutierrez Mellado não tivessem a corajosa resistência da lucidez.

Como correspondente da Folha de S.Paulo em Madri, eu sabia que uma conspiração estava em marcha, e  que a Casa Real estava por detrás do movimento de direita, que deveria estourar quando florescessem los almendros. O rei o estimulou mas, diante da resistência, recuou, e o fez malograr.