Um dia depois do outro

A classe média vive a ascensão histórica que não estava nas previsões alheias. Soube esperar PODE SER QUE OCORRA necessidade de explicação, por trás de tendências que se esboçam e não se compõem, neste início do terceiro mandato por conta do PT. Ainda é cedo para avaliar o que pode estar além da curva. Pode vir também a ocorrer alguma necessidade com a qual ninguém contava. Este eterno recomeço de governo cuida de demarcar espaços oficiais, sem excluir a dubiedade do ex-presidente Lula em relação a normas restritivas.

Ele pode, outros não? Para todos os efeitos, o ex-presidente não perde oportunidade e, quando não a tem, nem ninguém providencia, ele pega carona em fatos alheios. É mais forte do que o próprio Lula a necessidade de aparecer até quando se esconde. Não se dá por achado quando apanhado em flagrante. Entre o social e o sindical, tudo se pode esperar dele, porque é inevitável algum nostálgico efeito político de episódios já sem testemunhas. Já está celebrando a volta de José Dirceu ao PT.

Ao fundo, a classe média vive a ascensão histórica que não estava nas previsões alheias. Soube esperar e passa a ser reconhecida e tratada como a real vencedora – que não deixou de ser – da sucessão presidencial oculta sob uma luta de classes fictícia, da qual Lula continua a ser o profeta do passado. Era tão rarefeito o socialismo de que foi expressão que nem arejou seus dois mandatos geneticamente capitalistas. Gastou por conta do bifrontismo na campanha presidencial.

Dilma Rousseff nem precisa falar para ser reconhecida como a expressão política – e, conforme o resultado final, histórica – da ascensão definitiva da classe média no Brasil. A impropriamente referida como pequena burguesia já é a maior parcela social, a partir da definição lulista segundo a qual três refeições por dia são o passaporte para a classe média, que se cansou de ser o recheio que, entre a burguesia e o proletariado, dá sabor histórico ao bolo que não mais está em oferta.

Do lado de dentro do poder, não será demais assinalar a qualidade política com que a presidente Dilma Rousseff, sem chamar a atenção, procura retribuir à confiança nela depositada pelos eleitores que a sufragaram mais por intuição do que por se dução eleitoral, quando foi apresentada como complemento circunstancial do lulismo explícito. A campanha mostrou o ex-presidente alterado quimicamente pelas ênfases provocadoras no final do segundo mandato que lhe fugia por entre os dedos.

Nunca Lula foi tão esperado pelos que o queriam sem a proteção presidencial para homenageá-lo com opiniões severas que ficou devendo.

Trata-se de dívida renovável periodicamente.

O ex-presidente se torturou na quarentena, por não ter de que se ocupar, e foi a Dacar sabendo tratar-se de evento que se repetia em vão pela décima primeira vez.

Mesmo assim, o repôs no foco de notícias programadas para quem sente o poder girar fora do alcance eleitoral.

O último Lula, cujo apogeu foi a campanha presidencial, se valeu da malandragem já fora de moda, à qual bastava, no século passado, aquele jactancioso “fale mal, mas fale de mim” já devidamente sepultado. Não será de estranhar que em breve o ex-presidente faça o tipo que fala em voz alta nas ruas, para espantar dúvidas p e r t u r b a d o ra s .

Pouco visto por aí durante o retiro espiritual, mas sempre referido de passagem em notícias alheias, Lula dá os primeiros passos para não ser confundido com outro no novo ciclo em que continuará tratado como ex-presidente e não como candidato, ao opinar sobre o que não mais lhe diz respeito.

Não deve ser fácil a quem a Presidência, para compensar a vida, proporcionou a ilusão de viver o teor popularesco da própria sucessão e ter como certa a volta em 2014. O tempo continua a ser a variável mais inconfiável em política.