Dança do terror

D iretor, elenco e cenários são essencialmente americanos, mas Cisne Negro , que chega hoje ao circuito carioca amparado por cinco indicações para o Oscar deste ano, incluindo as de melhor filme, direção e atriz (Natalie Portaman), tem alma russa. Ambientado nos bastidores da montagem de uma nova versão do balé O lago dos cisnes , durante o qual se ouvem temas criados por Piotr Tchaikovski (1840-1893) o tempo inteiro, o novo filme de Darren Aronofsky tem influências diretas do escritor Fiódor Dostoiévski (1821-1881) em sua gênese.

– Sou um grande fã de Dostoiévski – admitiu o diretor nova-iorquino de 41 anos em entrevista ao JB , durante o Festival de Londres. – Sempre tive vontade de trabalhar com o conceito de maldade, da ideia do diabo, e estava decidido a trabalhar sobre um conto dele sobre um homem que acorda e descobre que estão tentando substituí-lo. Enquanto pensava em como fazer um filme a partir dessa premissa, fui assistir ao O lago dos cisnes para um possível projeto no mundo do balé. Percebi que o espetáculo é construído em torno de uma bailarina que dança dois personagens, um ingênuo e outro mais sexualizado. As duas ideias foram se fundindo em uma história só.

E em seu novo longa-metragem, o premiado realizador de O lutador , vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2009, não economiza referências dostoievskianas. A história de uma bailarina talentosa que luta contra as próprias inibições e imaturidade para conquistar o papel principal do balé de Tchaikovski, papel que já deu a Natalie o Globo de Ouro, foi alimentada por temas caros ao autor do clássico Crime e castigo , como a luta entre o Bem e o Mal, a degradação moral como elemento inerente à condição humana e a possibilidade de redenção. Nina (Natalie) é uma dançarina de Nova York que disputa o papel central de uma versão modernosa de O lago dos cisnes preparada por sua companhia de dança, que acaba de dispensar sua principal bailarina, a já madura Beth Macintyre (Winona Ryder).

Embora talentosa e perfeccionista, a timidez e a inibição sexual da jovem revelam-se obstáculos na realização de seu maior sonho: Thomas Leroy (Vincent Cassel), o diretor do grupo, não acredita que ela tenha a energia e o apelo sexual necessários para interpretar o Cisne Negro, o obscuro antagonista da obra de Tchaikovski.

As pressões sobre Nina chegam de todos os lados, da mãe dominadora (Barbara Harshey), que a criou como uma criança assexuada e quer ver nela a estrela que nunca conseguiu ser, da inveja que desperta nas demais bailarinas, em especial Lily (Mila Kunis), sua principal rival. Os ensaios tornam-se estressantes, no limite do alucinatório.