José Sarney tem a chance de sair de cena por cima

MAIS UMA VEZ, deu José Sarney na cabeça para presidir o Senado Federal. Mesmo desgastado pelo escândalo dos atos secretos, há dois anos, quando sobreviveu a nada menos que 11 pedidos de cassação, todos arquivados pela Mesa Diretora, o ex-presidente teve 70 votos, contra 8 do senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), seu único adversário na disputa.

Trata-se de uma nova demonstração de que o político José Sarney tem sete vidas. Ou até mais. Aos 81 anos, ex-deputado, ex-governador do Maranhão, senador pelo Amapá e primeiro presidente civil da República após 21 anos de ditadura militar, Sarney é um autêntico baluarte do pragmatismo de resultados. Presidiu a Arena, sigla que era o braço do governo militar no Legislativo, mas, décadas depois, constituiu-se também um dos principais aliados dos dois governos de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. Fundou o conservador PFL, mas também foi amigo do cineasta Glauber Rocha, um iconoclasta assumido.

No discurso de posse, anteontem, Sarney prometeu que esta nova administração no Senado (que presidiu outras quatro vezes) será a última e também a mais eficiente. Prestes a se retirar da política, que lhe deu muitos louros mas também desgastes – como a baixa popularidade durante seu mandato presidencial – o senador tem agora a chance de deixar a vida pública ouvindo elogios.

Basta que enfrente a burocracia e os feudos do Senado, ataque privilégios, remova encastelados, mexa com intocáveis, corte mordomias e faça da transparência uma regra.