Para onde vai o Egito?

Caso os muçulmanos, principal força de oposição, assumam o poder, equilibrio na já instável região será totalmente afetado O protesto que reuniu ontem mais de um milhão de pessoas na praça Tahir, no Cairo, Egito, foi um divisor de águas na história do país. Depois da manifestação, uma das maiores da história do país, o presidente Hosni Mubarak, no poder desde 1981, afirmou que não vai concorrer às eleições previstas para setembro próximo.

Mas, enquanto manifestantes pedem a saída de Mubarak até a próxima sexta-feira (a que chamam “O dia da saída”), analistas acreditam que a deposição do ditador vai abrir uma fase de mistério no futuro do Oriente Médio. Afinal, o equilíbrio geopolítico da região depende do rumo a ser tomado pelo país, que, desde 1952, amarga regimes ditatoriais.

Para os analistas, a Irmandade Muçulmana, principal e mais bem organizado grupo de oposição ao regime de Mubarak, tem chances até mesmo de assumir o poder.

– Não se pode descartar que a Irmandade assuma o poder, já que não sabemos de forças políticas que possam fazer frente a ela – analisa Wil lians Gonçalves, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF). – Ela provavelmente vai se apresentar e tem grande representação no parlamento, o que lhe dá mais chances.

E o radicalismo da oposição – que não reconhece o vizinho estado de Israel – alarma a comunidade internacional. Mesmo sob um regime autoritário, o Egito é um dos principais aliados dos Estados Unidos e da Europa no mundo árabe, e um dos poucos países que hoje reconhecem a nação israelense.

Para Sabrina Evangelista Medeiros, cientista política especializada em Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Egito é um dos raros flancos de tranquilidade para Israel no Oriente Médio.

– Os principais conflitos estão na fronteira do Líbano, na faixa de Gaza e nos assentamentos na Cisjordânia – explica. – O não reconhecimento de mais um país só vai acentuar uma conjuntura de crise e dificultar a pacificação na região.