Para onde vai o Egito?

Mubarak é responsável pelo declínio do Egito A possibilidade de a Irmandade Muçulmana assumir o poder com sua posição anti-israelense preocupa autoridades internacionais.

– Se o Egito, que tem uma população numerosa e um exército poderoso, assume uma posição contra Israel, os Estados Unidos ficarão muito fragilizados, será mais uma frustração no governo Obama – observa Willians.

O antropólogo Paulo Gabriel Hilu, coordenador do núcleo de estudos sobre Oriente Médio da UFF, não cogita, no entanto, conseqüências apocalípticas.

– A Irmandade está disposta a participar do jogo político eleitoral – assegura. – O mais importante é que essa transição seja feita para o Egito e para o povo egípcio. A situação com Israel é secundária, são os egípcios que vão decidir qual é o melhor rumo a tomar.

No que diz respeito à implementação de uma democracia no país, especialistas se dividem nas opiniões.

– É difícil fazer essa previsão. O regime egípcio é historicamente militar, e uma democracia pluripartidária é algo sem tradição no país – explica Willians. – Na verdade, esse processo está no início, e a deposição de Mubarak abre apenas uma série de interrogações sobre a sociedade e a política egípcia em relação ao resto do mundo.

Sabrina acredita que a força militar é historicamente um elo fundamental na estabilização política do país, mas não garante um governo.

– Do mesmo modo que Mubarak, com um regime fechado, foi fragilizado, num outro governo só com militares isso também seria possível, ainda mais sem uma liderança política, como é o caso do exército egípcio hoje – analisa. Entenda a crise O Egito está sob regime autoritário desde 1952, quando depôs a monarquia. Os governos que se sucederam adotaram projetos nacionalistas e socialistas que encontraram apoio da população, mas, com o passar do tempo, isso foi gerando descontentamento.

– O socialismo árabe não trouxe os benefícios esperados pelo povo, e o caráter autoritário do regime político começaram a gerar formas de resistências – explica Paulo G ab r i e l .

Ao longo de décadas, o governo, então, manteve os regimes autoritários, mas abriu um processo de liberalização econômica. – Com a liberalização, a distância entre ricos e pobres aumentou, fomentando a oposição, principalmente de grupos islâmicos – acrescenta o antropólogo. – Quando Mubarak assume, ele adota uma política neoliberal, ainda com caráter autoritário e assume a política do estado mínimo, que deixou de fornecer serviços básicos à população.

Somado a isso, o especialista acrescenta, a economia controlada por cartéis ligados a Mubarak e todo tipo de oposição sendo duramente reprimida, geraram descontentamento generalizado entre a população. No plano internacional, o Egito então sofreu um declínio cada vez maior como potência regional e se tornou um país com uma situação social degradada e sem infraestrutura.

– O governo Mubarak causou o declínio do Egito – afirma Paulo Gabriel. – Então o descontentamento em relação ao governo é generalizado, está em todas as classes e isso provocou os levantes que vimos ao longo dessa última semana.